Jacir: após abandono, um novo caminho

Ele é um dos 1.200 participantes de programa modelo

O Estadao de S.Paulo

15 de dezembro de 2007 | 00h00

Do crime que cometeu, Jacir Otonni, de 42 anos, não fala mais. Faz parte de um passado sobre o qual ele, aos poucos, vai colocando pedras para trilhar novo caminho. Portador de esquizofrenia, transtorno mental considerado grave, Otonni estava esquecido havia cinco anos em uma delegacia no interior de Minas, quando foi resgatado pela equipe do Programa de Atenção Integral ao Paciente Judiciário (PaiPJ), uma parceria entre a Justiça de Belo Horizonte e a Universidade Newton Paiva.É um exemplo de que o tratamento psiquiátrico em liberdade, bandeira da luta antimanicomial que completa 20 anos esse mês, pode funcionar. Dos 1.200 doentes mentais autores de crimes que passaram pelo programa em sete anos, menos de 2% reincidiram e só em delitos ligados a drogas. Embora 15% fossem homicidas, não houve reincidência de crimes contra a pessoa.Quando um criminoso é preso e se suspeita de que tenha transtorno mental, ele é enviado pelo juiz para avaliação no PaiPJ. Confirmada a doença, passa a ser acompanhado pela equipe de 10 psicólogos, 8 assistentes sociais e 8 advogados, além de estudantes da universidade. Por meio deles, é encaminhado para os serviços da rede pública. "São pacientes que nunca tiveram acesso a nada e encontraram na criminalidade uma forma de aliviar o sofrimento mental. Tratados, eles não reincidem", acredita o psicólogo do programa Fabrício Junio Rocha Ribeiro.Se a internação é necessária, vão para hospitais psiquiátricos comuns e não para manicômios judiciários. E continuam sendo monitorados pelo PaiPJ. Em regime de desinternação progressiva, fazem saídas - que começam com passeios a shopping, cinema e teatro - sempre acompanhados dos estagiários. Em casa, continuam o tratamento, garantido por visitas domiciliares e consultas freqüentes no PaiPJ. Otonni ficou quatro anos internado e está livre há três. Há alguns dias, sentiu sintomas da doença e, sob orientação do PaiPJ, voltou voluntariamente para o hospital, onde passa os dias. Dorme em casa. "Sei que em um mês estou bom. O tratamento não falha", comemora. Ele trabalha na pensão onde vive e ganha mais R$ 240 de um benefício federal. Dos 316 pacientes do PaiPJ, hoje, 76% são atendidos em casa e 8% em hospitais. Outros 16% estão presos. São casos em que o transtorno mental se manifestou após a sentença. "Existe uma ?loucofobia?, uma intransigência social contra o doente mental. Mas ele só comete crimes quanto não está sendo tratado", diz o vice-presidente do Conselho Federal de Psicologia, Marcos Vinícius de Oliveira. "Eles são vítimas da ausência do Estado."

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