''Janela de infidelidade'' deixa oposição mais vulnerável a assédio

Temor de oposicionistas é que mudança na lei de fidelidade facilite adesão, à base aliada, dos que buscam cargos no governo

, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

O debate da reforma política levanta uma desconfiança: no plano nacional, pode se transformar em duro golpe contra os partidos de oposição. A maioria dos deputados e senadores quer aprovar a alteração da regra que estabelece a fidelidade partidária, para criar uma espécie de "janela" para que os parlamentares possam trocar de partido seis meses antes da votação seguinte. Nesse caso, poderiam mudar de legenda apenas uma vez.

Para PSDB, DEM e PPS, partidos de oposição, a proposta é uma ameaça real. Longe do poder federal desde a posse do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2003, esses partidos se tornarão vulneráveis ao assédio de legendas da base governista, interessadas em engordar seus quadros, caso seja aprovada a brecha na regra da fidelidade partidária.

No novo modelo, o grande mecanismo de atração seria o espaço político que os novos filiados poderiam ocupar na base de apoio da presidente Dilma Rousseff, seja por meio de cargos ou de liberação de recursos federais.

Na prática, a oposição já tinha se tornado alvo preferencial desse processo de atração de novos parlamentares. A hemorragia política da oposição só foi contida por conta da interpretação dada pela Justiça de que o mandato eleitoral pertence ao partido e não ao candidato.

Agora, com a maioria do Congresso apoiando a criação da janela para trocas, passou a ser questão de tempo o início dessa movimentação. Vários políticos apenas aguardam a aprovação da proposta para trocar de legenda. A mudança mais clara envolve o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM). O prefeito quer legenda para concorrer ao governo do Estado, em 2014, e sabe que seu atual partido planeja apoiar a candidatura do governador Geraldo Alckmin (PSDB) à reeleição.

Assim, para poder enfrentá-lo, Kassab já prepara mudança para uma legenda da base governista, como PSB ou PMDB, e planeja levar outros descontentes do DEM para seu grupo.

Dentro do DEM, outro alvo é o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, que já foi sondado pelo presidente do PSB e governador de Pernambuco, Eduardo Campos, para se filiar aos socialistas. "É claro que para nós o ideal é que a regra permaneça a mesma", afirma o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ). "Mas não adianta manter pessoas que querem sair. Isso só enfraquece o partido."

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