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Jazz tradicional com sotaque de SP

Banda paulistana mantém há 45 anos fidelidade à forma mais pura do estilo musical de New Orleans

Mônica Cardoso, O Estadao de S.Paulo

08 de setembro de 2009 | 00h00

Eles não são tradicionalistas só no nome. A Traditional Jazz Band chega aos 45 anos se mantendo fiel à vertente mais pura do estilo musical nascido em New Orleans, nos Estados Unidos. No repertório, só ritmos das raízes do jazz da primeira metade do século passado: ragtime, charleston e bebop. Nada de estilos mais modernos como acid, nu, fusion ou cool jazz. O que não significa, ainda mais no jazz, falta de criatividade. "Uma orquestra sinfônica se caracteriza pela disciplina em seguir o preestabelecido. No jazz, não. Eu toco uma música hoje e vou tocá-la amanhã de outra maneira, porque depende do estado de espírito do músico. E é uma improvisação coletiva. Cada um tem o seu momento para improvisar um solo. É como se fosse uma conversação entre os integrantes da banda", conta o trompetista Austin Roberts, de 70 anos.

Além de Roberts, outros cinco dos sete integrantes são paulistanos: Edo Callia, no piano; Carlos Chaim, no contrabaixo; Eduardo Bugni, na guitarra e banjo; William Anderson, no trombone; e Marcos Mônaco, no sax e clarinete. O baterista Alcides de Oliveira Lima, o Cidão, é de Sorocaba. Os instrumentos compõem a formação clássica do jazz . A eles se soma o wash board, uma tábua de lavar roupas utilizada pelos músicos do início do século passado.

"Os negros de New Orleans eram pobres e não tinham bateria. Então, eles improvisavam com o wash board, que produzia um som parecido com o reco-reco", diz o pianista Callia. O instrumento entra em cena em músicas como Califórnia, Here I Come, um tema cantado por Al Johnson, um cantor americano que ficou conhecido por pintar o rosto de preto.

A banda surgiu em 1964, formada pela reunião de estudantes universitários da Poli-USP e do Mackenzie que frequentavam os mesmos barzinhos de jazz. "Além da efervescência do rock e da bossa nova, havia um revival do jazz na década de 1960. Havia inúmeros bares de jazz como o Otero e Gonzales, na Bela Vista, o Capitu, nos Jardins, e a Galeria Metrópole, na Avenida São Luís", conta Roberts, um dos fundadores do grupo. E era justamente naqueles barzinhos enfumaçados, típicos do clima de jazz, que os rapazes foram conseguindo espaço para as apresentações.

Histórias não faltam nessas mais de quatro décadas de banda. Os músicos brincam que já se apresentaram na terra, água e ar. Eles já perderam a conta do número de shows em cruzeiros pelo litoral brasileiro. Durante dois anos, na década de 1980, o grupo tocou em voos da Vasp, em viagens com mais de três horas de duração. "Muita gente gostava e pedia para viajar nos voos em que estávamos. Mas havia quem reclamava porque queria dormir", conta Cidão.

E tocaram também em trem. O grupo tocava em um vagão de uma composição que saía da Estação Júlio Prestes, na Luz, e seguia até Santos. Ao chegar à estação de trem de cada cidade, o grupo fazia uma apresentação gratuita. O show percorreu mais de 16 estações ferroviárias, tocando para um público que nunca havia ouvido falar de jazz. A ideia era percorrer 54 cidades do Estado. "Mostramos o projeto para a Fepasa que comprou a ideia. Mas, por causa do Plano Collor, o projeto não durou e foi cancelado", conta Callia.

Dois momentos marcaram a trajetória da banda: a participação no maior festival de jazz tradicional, o Sacramento Jazz Jubilee, na Califórnia, e um show em um pequeno bar na famosa Bourbon Street, uma das ruas que concentram bares de jazz em New Orleans. "O lugar comportava só 150 pessoas, mas o público que veio assistir ao show era tanto que tiveram de fechar a rua", conta Cidão.

Os integrantes, no entanto, nunca deixaram o diploma de lado. A banda é composta por três engenheiros, dois advogados, um economista e um administrador de empresas. "Temos uma filosofia. Estamos na banda pelo prazer de tocar, o que não significa tocar de forma amadora nem displicente. Tratamos a música profissionalmente, mas sem fazer dela uma profissão. Queríamos tocar sem ter de abandonar nossa profissão", explica o pianista/engenheiro Callia. E foram os motivos profissionais que levaram os componentes a entrar e sair da banda nessas quatro décadas. Do hepteto, apenas três são da formação original.

Prova disso é que eles ensaiam por cerca de três horas toda segunda-feira à noite em um cômodo do escritório de engenharia de Callia, no Butantã, zona oeste de São Paulo. É na salinha com pouca iluminação, repleta de fotos antigas, partituras e fitas K7 que eles escolhem as músicas, de um repertório de 400, que serão tocadas no concorrido show semanal - Vamos ao Jazz, realizado há nove anos na Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos. Com bom humor, os músicos tocam e contam causos da história do jazz e da trajetória da banda.

A elegância não está apenas no repertório. Há muitos anos, eles vestem impecáveis uniformes, que se tornaram marca registrada. A ideia foi inspirada nas big bands, como a de Duke Ellington, que usava uniformes. As gravatas são especialmente desenhadas em um ateliê em New Orleans. Cada integrante escolhe uma cor de gravata. Ao colorido da gravata, se juntam a camisa preta e a calça cáqui. Dias especiais pedem smoking ou summer, mas com gravatas borboletas coloridas. E é com roupa de gala que eles devem subir ao palco do Theatro São Pedro, na Barra Funda, no próximo dia 19 para o show do lançamento em comemoração aos 45 anos da banda.

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