Reprodução/Redes Sociais
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Joalherias de shopping têm onda de assalto e cenas de troca de tiros assustam

Levantamento do 'Estadão' identificou 16 assaltos a joalherias no Brasil em 2022 desde o início do ano

Ítalo Lo Re, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2022 | 05h00
Atualizado 06 de julho de 2022 | 15h41

Shoppings em várias regiões do Brasil têm visto uma onda de assaltos em joalherias, alguns em horários de pico e até com troca de tiros entre seguranças e suspeitos. Em São Paulo e no Rio, foram três roubos em menos de uma semana – dois terminaram em mortes. Em maio, houve ao menos dois casos na Grande Belo Horizonte. As polícias ainda tentam entender os perfis das quadrilhas e se há conexão entre os crimes. 

Levantamento do Estadão identificou pelo menos 16 ataques a joalherias desde o início do ano, em seis Estados e no Distrito Federal. Um dos atrativos desse tipo de roubo, apontaram delegados, é o alto valor dos produtos roubados e a possibilidade de usar materiais mais valiosos, como ouro e prata, como fonte rápida de dinheiro.

O caso mais recente foi no Shopping Aricanduva, zona leste da capital paulista. Quatro criminosos assaltaram uma joalheria no local no último dia 29 e, durante a fuga, trocaram tiros com seguranças no estacionamento. Ninguém se feriu, mas o grupo conseguiu fugir e abandonou o carro usado no roubo, que estava cravejado com balas, em uma rua próxima.

À frente das investigações, o delegado Renato Bartelega disse ao Estadão que é o primeiro caso com esse perfil que atende desde que começou a atuar no 66º Distrito Policial (Vale do Aricanduva), no início do ano passado. Ainda não há presos, mas as investigações estão “bem avançadas", informou o delegado. O prejuízo estimado é de R$ 300 mil.

Menos de uma semana antes, no último dia 25, um grupo fortemente armado invadiu duas joalherias do Shopping Parque D. Pedro, em Campinas, interior de São Paulo. O crime resultou na morte de um suspeito, atingido por um segurança durante troca de tiros no estacionamento, e na prisão em flagrante de outras três pessoas. Parte do bando, que não teve a quantidade de integrantes revelada pela polícia, conseguiu fugir.

“Chamam atenção a ousadia e até a imprudência da quadrilha de ter cometido um crime como esse em um sábado à noite, um dos horários em que os shoppings são mais movimentados”, disse ao Estadão o delegado Oswaldo Diez Junior, da Divisão de Investigações Criminais de Campinas. Segundo ele, o tumulto causado não só prejudicou a ação da quadrilha, como colocou consumidores e funcionários do shopping em risco.

Na mesma data, um segurança morreu em uma troca de tiros dentro de um shopping de luxo na zona oeste do Rio de Janeiro. A investigação indica que pelo menos 12 criminosos participaram do assalto à Sara Joias, no Village Mall. Após recolher joias e relógios, o grupo atirou durante a fuga na cabeça do segurança Jorge Luiz Antunes, de 49 anos, que morreu na hora. Até o momento, dois suspeitos foram identificados, o último nesta segunda-feira, 4. Procurada pela reportagem, a Polícia Civil do Rio (PCERJ) informou que “as investigações seguem para identificar e prender todos os envolvidos”.

Para Diez Junior, os assaltos a joalherias fazem parte de uma migração da criminalidade ainda em curso e que deve ser olhada com atenção. “Com o avanço das transações eletrônicas, viu-se emergir o sequestro-relâmpago para tentar desvios por transferência via Pix (ferramenta de pagamento instantâneo)”, disse ele, que relatou que as polícias intensificaram o combate a esse tipo de crime. Um exemplo é a Operação Sufoco, em São Paulo.

“Agora a gente está percebendo, em tese, o início dessa migração para os objetos de desejo que são as joias. Elas são de fácil transporte, valor agregado alto e muitas pessoas compram”, explicou. Segundo o delegado, os criminosos costumam vender os objetos em valores bem abaixo do mercado – o que torna a transação atrativa para os receptadores – e ainda assim acabam lucrando bastante com os crimes.

“A preferência das quadrilhas é conseguir dinheiro em espécie com os crimes, mas é difícil hoje em dia, até pela segurança dos bancos e carros-fortes, então fazem isso”, disse o delegado. Ele reforça que relógios de luxo costumam ser avaliados em cerca de R$ 100 mil. Ao mesmo tempo, o valor de algumas joias pode superar R$ 1 milhão. “Os shoppings como alvo é porque as grandes joalherias se organizam lá.”

Uma vez que os objetos roubados são vendidos, eles podem ser tanto derretidos, o que permite reutilizar materiais como prata e ouro, como revendidos no mercado nacional. Outra possibilidade é exportá-los para outros países. Este último caminho seria percorrido principalmente por relógios, já que podem ter número de série e, assim, há mais chance de serem identificados pelas polícias brasileiras. 

Em Minas Gerais, apenas 14 dias separaram dois casos na região metropolitana de Belo Horizonte. No primeiro deles, de maior repercussão, um grupo de sete criminosos invadiu uma joalheria no BH Shopping, um dos principais da capital. Conforme a polícia, os assaltantes fizeram uma funcionária refém e roubaram relógios de luxo. O crime ocorreu no dia 7 de maio, um sábado, e ninguém foi preso até o momento.

No dia 20 de maio, um homem roubou uma joalheria no Itaú Power Shopping, localizado em Contagem, região metropolitana da capital mineira. Ele apontou uma arma para as vendedoras e as fez depositarem joias em uma sacola. A ação foi individualizada – o que foge do padrão dos outros crimes – e o homem fugiu pelos corredores. Em nota, a Polícia Civil de Minas Gerais informou que as investigações seguem para identificar os suspeitos dos roubos e que “as apurações estão em fase avançada”.

“Nos últimos meses tem aumentado consideravelmente o número de assaltos a joalherias e isso consequentemente tem aumentado bastante a procura por seguros do ramo joalheiro”, disse Flávio Costantini, diretor da corretora de seguros Lloyd Continental. Ele reforça que a procura de joalherias por seguro aumentou cerca de 50% na comparação com o último ano. “E não é só de uma região específica, é uma aumento homogêneo, a nível nacional.”

Momento do País 

"A gente não vê isso como algo específico de shopping, mas como algo do momento do País, da estrutura do País, que a gente está atravessando", afirmou Glauco Humai, presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce). Segundo ele, o avanço da criminalidade diante da retomada econômica acaba resvalando também nos shoppings, onde ganham ainda mais repercussão. "A percepção é que a gente está na mesma média do período pré-pandemia."

"Isso (assaltos) já aconteceu em 2019, 2018... São quadrilhas que se especializam em um ou outro furto (...) Essas quadrilhas, durante algum período, focam em joalheria de shopping, por exemplo, e chamam muita atenção”, disse Humai. “A gente está passando por um momento agora, na minha percepção, em que essas quadrilhas estão organizadas, atuando em shopping, mas já rapidamente vão ser desmanteladas."

Conforme o presidente da Abrasce, os shoppings continuam com o planejamento de avançar cada vez mais nas ações de segurança, o que envolve tecnologia, inteligência, medidas de contenção e relacionamento com o poder público. Este último aspecto, destacou Humai, tem sido impulsionado pela modernização das câmeras. “Hoje elas têm a leitura facial e, quando tem alguém do banco de dados da polícia que tem ali levantado a sua ficha, já avisam a polícia diretamente", exemplificou.

"Os shoppings usam também aquelas câmeras de LPR, license plate recognition, que é o reconhecimento de placa. Então todos os carros que entram nos shoppings, ali na cancela de entrada já se faz a leitura da placa do veículo. Tendo algum veículo roubado, suspeito ou que tenha uma informação passada pela polícia, já acende um alerta", disse Humai. Censo realizado pela Abrasce neste ano aponta que há cerca de 620 shoppings no País. Juntos, eles recebem 397 milhões de visitas por mês.

Diretor institucional da Associação de Lojistas de Shopping (Alshop), Luis Augusto Ildefonso reforça que quando a polícia ataca um tipo de crime, normalmente em alta, acaba havendo uma migração de quadrilhas para outras modalidades. “Agora apareceu esse assalto a joalherias”, disse Ildefonso. Ele ressalta que o crime já existia, mas reconhece que começou a aparecer com maior frequência nos últimos meses diante do combate a modalidades como a "saidinha de shopping". A estimativa é que o investimento anual em segurança feito por shoppings centers fica em torno de R$ 1,5 bilhão no País.

Na capital paulista, a reportagem do Estadão acompanhou que shoppings como o JK Iguatemi e o Pátio Higienópolis mantêm carros com equipe de segurança nas entradas principais, principalmente no período noturno. Em nota, a rede Iguatemi informou acompanhar os assaltos “com atenção”. “Os empreendimentos possuem um padrão reforçado de treinamentos das equipes e segue acompanhando o tema com atenção junto às autoridades competentes”, afirmaram. A reportagem tentou contato com a Associação dos Joalheiros do Estado de São Paulo (Ajesp), mas não foi atendida.

4 perguntas para Guaracy Mingardi, analista criminal e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

1. O que dizem os casos recentes de roubo a joalherias de shopping?

É uma segunda onda. Já teve isso (assalto a joalherias de shopping) há alguns anos, só não nessa proporção. Naquela época, eles fizeram alguns roubos desses – alguns deram certo e outros não. Teve tiroteio em meio de shopping, teve uma série de coisas assim – e aí os ladrões ganharam know how. Porque um que tenha escapado, que não tenha sido preso ou que conversou com os amigos na cadeia explica como é. O ladrão profissional normalmente passa as ideias para outro. O crime aprende rápido quando tem que se virar.

2. Os shoppings são preparados para combater esse tipo de crime?

A segurança de shopping está mais habilitada para dar informação, para cuidar de algum caso de furto, de uma briga. Agora, roubo à mão armada é outra coisa. E no shopping tem um problema extra: um tiroteio no shopping, se matar um cliente ou mais de um cliente, vira um escândalo. Então, os proprietários dos shoppings, os lojistas não querem um grande caso de tiroteio lá. Imagina ter um tiroteio que dura dois, três minutos ali.

3. E o que dizer das câmeras por todos os lados e a possibilidade de gravar a ação? Isso não afasta as quadrilhas?

Não creio que eles estejam muito preocupados em ser filmados ou não. Sem contar que um shopping comum tem três, quatro saídas diferentes. Até a polícia chegar e cercar aquilo é difícil. Dependendo de onde é o shopping, da até para fugir a pé, pegar o carro fora do shopping.

4. Como o assalto a joalherias de shopping pode ser combatido de forma efetiva?

Aos poucos a polícia vai identificando essas quadrilhas – que deve ser mais de uma, mas não necessariamente. Quando se rouba joia, a depender dela, tem como localizá-la. Então tem que ir atrás dos receptadores, principalmente se for vendida aqui no Brasil. E através do receptador se chega no ladrão. É como o roubo de celular: não adianta prender um por um dos ladrões de celular. Sempre vão aparecer mais enquanto tiver receptador comprando. No caso das joias, o receptador tem que ser arranjado antes, eles têm que saber quem é o receptador antes. Eles não querem ficar dois, três meses com a joia esperando. Querem vender logo. Pegar o dinheiro e sumir. Então, o trabalho da polícia deve começar pelos receptadores que trabalham com esse tipo de mercadoria.

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