Ernesto Rodrigues/Estadão
Ernesto Rodrigues/Estadão

João de Deus aparece pela 1ª vez em Abadiânia após denúncias de abuso e diz ser inocente

Médium fez uma visita tumultuada de menos de 10 minutos na casa Dom Inácio de Loyola e afirmou estar na mão da lei brasileira. Também declarou: "João de Deus ainda está vivo"

Ligia Formenti e Isabel Cristina, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2018 | 10h36

ABADIÂNIA - Foram dez minutos de tumulto e gritaria. Assim que desembarcou num Ford Ka branco, João de Deus foi cercado por seus funcionários,  fez uma visita de menos de 10 minutos na sala de atendimento e retornou. Jornalistas acompanharam o trajeto, mas foram impedidos de se aproximar do médium, que fez a primeira visita ao centro Dom Inácio de Loyola depois de ser acusado de abuso sexual por mulheres que buscaram a casa em busca de tratamento espiritual.  

No trajeto, funcionários gritavam: "Respeitem! Ele vai falar." A promessa, no entanto,  não se concretizou. Apesar do amplo espaço, não foi providenciado um local para a entrevista. Em um rápido pronunciamento que fez aos fiéis, no altar do centro, o médium afirmou que quer cumprir a lei brasileira. "Eu estou na mão da lei brasileira. O João de Deus ainda está vivo". Um vídeo gravado por funcionários sobre a fala foi distribuído para jornalistas.

Ele saiu sem dar entrevista, apenas disse, entre um grito e outro de seus funcionários,  no caminho de volta ao carro, que cumpria uma missão dada há 60 anos. E repetiu várias vezes: "Eu sou inocente".

Na confusão,  voluntários chegaram a agredir jornalistas. A chegada no centro ocorreu por volta das 9h20, um horário pouco usual. João de Deus, cujo nome de batismo é João de Faria, horas antes havia desembarcado no aeroporto de Anápolis, de um voo procedente de São Paulo.

Esta foi a primeira aparição pública do médium, depois que mulheres vieram a público acusá-lo de abuso sexual. Passados cinco dias após as primeiras denúncias, mais de duas centenas de mulheres procuraram o Ministério Público para fazer relatos semelhantes. Pelo menos quatro inquéritos já foram abertos.

As denúncias afetaram o movimento da casa, onde atendimentos são realizados. Por volta das 8h30, cerca de 400 pessoas - incluindo crianças e duas pessoas de cadeiras de rodas - aguardam a chegada do líder espiritual.  Isso representa um terço do movimento habitual. Chico Lobo, um dos  funcionários da casa, afirmou que três ônibus - de São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas - chegaram à cidade. "É menos que o de costume. Mas há também o impacto da proximidade das festas. Nesta época, tradicionalmente o movimento cai."

Funcionários e voluntários da casa começaram a chegar na casa Dom Inácio de Loyola mais cedo. "Sabíamos que seríamos necessários aqui. Ele sempre esteve presente com seu amor, agora estamos prontos para defendê-lo", disse Jacilda Oliveira Soares, que desde 1985 frequenta a casa. Há alguns anos, ela se dedica a organizar as filas de atendimento.

Primeiro, em geral, ingressam fiéis escolhidos pelo médium para formar a corrente de oração.  Eles ocupam uma sala próxima onde o líder costuma atender e ficam concentrados durante todo atendimento.  Para enfrentar as longas horas, muitos trazem travesseiros ou uma almofada especial, dobrável,  para proteger as costas e o quadril.  Nesta quarta eram cerca de 200 nessa condição.

Outras 200, a maioria usando roupas brancas, foram sentadas em cadeiras situadas num pátio coberto, aguardando atendimento. As pessoas são chamadas em grupos, de acordo com a frequência que vem à casa. De acordo com funcionários,  mesmo sem a presença de João de Deus,  os trabalhos podem ser realizados. "Onde ele estiver,  a energia dele estará aqui", dizia Jacilda.

Um dós fies, o professor José Raimundo, de 63 anos, saiu de Manaus em busca de atendimento. Ele disse que ficou sabendo das denúncias por meio da imprensa, mas que isso não abalou sua fé. “João já me curou de problemas na visão e de palpitações. Venho aqui há 40 anos. Se ele errou, tem que ser investigado. Mas isso não tira o poder da sua cura”, afirma.

Outra fiel, a assistente social Mara Ortiz também viajou a Abadiânia já sabendo das acusações. Ela saiu de Pelotas, no Rio Grande do Sul, na terça-feira, 11, em uma caravana. De acordo com ela, estavam confirmadas 28 pessoas no grupo gaúcho, pelo menos 18 desistiram de viajar após verem a repercussão do caso. “Ele não é um Deus. É humano”, diz Mara que ainda revelou ser a primeira vez em que pretende se encontrar com João de Deus.

Negativo

O prefeito de Abadiânia, José Diniz, divulgou uma nota na tarde de terça, em que diz ver as acusações contra o médium João de Deus como um fato negativo para o município. Segundo ele, a cidade "recebe semanalmente milhares de turistas que procuram a cura para as suas enfermidades e anseios, assim colaborando com o desenvolvimento da cidade", em nota. Ainda em nota, o prefeito diz que, às denúncias contra o médium João de Deus, devem ser investigadas e apuradas pelos órgãos competentes.

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