Marcelo Camargo/Agência Brasil via AP
Marcelo Camargo/Agência Brasil via AP

João de Deus é considerado foragido e entra na lista da Interpol

Prisão preventiva de João de Deus havia sido autorizada no fim da manhã da sexta; médium deve se entregar neste domingo

Lígia Formenti, O Estado de S.Paulo

15 Dezembro 2018 | 14h54
Atualizado 15 Dezembro 2018 | 20h38

ABADIÂNIA - O médium João Teixeira de Faria, o João de Deus, acusado de uma série de abusos sexuais contra mulheres, é considerado foragido da Justiça e seu nome foi incluído na lista da Interpol. A prisão preventiva contra ele havia sido decretada no fim da manhã de sexta-feira, 14. O prazo para que se entregar terminou às 14 horas deste sábado, 15. João de Deus deve se entregar neste domingo, 16. O Estado apurou que a data foi definida em uma negociação entre a polícia e a defesa do médium.

"Já foi concedido um prazo, buscas já foram realizadas. Estão reunidos todos os elementos para que ele seja considerado foragido da Justiça", disse o coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal, Luciano Miranda Meireles.

A Polícia Civil suspeita que ele esteja fora de Goiás. Nas negociações realizadas neste sábado, uma das hipóteses era de que agentes fossem até o local onde ele está para fazer a prisão e o transporte até Goiás. Em virtude da idade (ele tem 76 anos) e da natureza do crime de que é acusado, a expectativa é de que ele fique em uma cela individual.

A prisão preventiva contra o líder espiritual foi decretada no fim da manhã de sexta. Integrantes do grupo destacado para fazer a investigação e as negociações, no entanto, ainda colocam em dúvida se o acerto será de fato cumprido. Para eles, a defesa do médium deverá aguardar o resultado do pedido de habeas corpus.

Se a medida for concedida antes de ele se apresentar, seria possível evitar um desgaste ainda maior para o médium, que atrai anualmente para a cidade goiana de Abadiânia 120 mil fiéis - 40% deles estrangeiros.

O advogado de defesa de João de Deus, Alberto Zacharias Toron, no entanto, afirmou em entrevista que seu cliente vai se entregar antes da apresentação do habeas corpus. A ação será proposta na segunda.

Uma vez preso, João de Deus seria levado para Goiânia, onde deve acontecer o interrogatório. “Será longo, detalhado. Há um grande número de relatos e informações que precisam ser questionadas”, afirmou o delegado-geral da Polícia Civil de Goiás, André Fernandes de Almeida. O delegado, porém, disse não descartar que o médium não esteja mais em Goiás

O MP de Goiás também investiga eventual movimentação suspeita de recursos financeiros, como transferência de dinheiro das contas de João de Deus. Transações financeiras desse tipo poderiam indicar intenção de ocultar valores e reduzir as chances de pagamento de indenização às vítimas. Segundo o jornal O Globo, João de Deus retirou R$ 35 milhões após as primeiras denúncias.

Desde que a prisão preventiva foi decretada, a Polícia Civil afirma já ter procurado João de Deus em mais de 20 endereços. Os locais já investigados estão sob sigilo. “Há pontos que também estão sendo vigiados”, disse Almeida.

Só após ele se entregar, a defesa de João de Deus deverá apresentar o pedido de habeas corpus. A expectativa é que a defesa explore o que o advogado Alberto Zacharias Toron classifica como “pequeno número de depoimentos” usados pela Justiça para fundamentar a decretação da prisão preventiva, o que poderia indicar fragilidade de provas. 

Há a possibilidade, ainda, de que a espiritualidade atribuída a João de Deus seja usada na argumentação. Para a defesa, a intolerância religiosa poderia incentivar o grande número de denúncias, muitas das quais ainda não formalizadas.

A tendência é de que os advogados procurem mostrar o médium como um homem rústico, simples, de personalidade multifacetada e que, muitas vezes, seria guiado por recomendações de guias espirituais. Em suma, viveria com uma lógica pouco convencional.

O momento em que o País vive também deverá ser incluído. Para advogados, depois de quatro anos de operação que trouxe denúncias contra uma série de pessoas públicas, um crime contra um candidato à presidência seriam fatores para aumentar a tendência de “denuncismo” e “polarização”. 

João de Deus foi visto em público pela última vez nesta quarta, quando visitou a Casa Dom Inácio de Loyola, onde faz os atendimentos. Em um pronunciamento de poucos minutos, disse ser inocente e estar à disposição da Justiça. 

Denúncias

O líder espiritual é suspeito de ter abusado sexualmente de mulheres, durante consultas particulares realizadas no centro onde presta atendimento espiritual, a Casa Dom Inácio de Loyola em Abadiânia, no interior de Goiás. Na aparição que ele fez na quarta-feira, no local, ele fez um rápido pronunciamento em que se declarou inocente e disse que está à disposição da Justiça.

Dois dias depois que os primeiros relatos de abuso vieram a público, após divulgação no programa Conversa com Bial, da Globo, o Ministério Público formou uma força-tarefa encarregada de investigar os casos. Já foram coletados mais de 330 depoimentos em vários Estados do País, Do total, 30 mulheres já formalizaram as acusações. Mulheres que se dizem vítimas também se apresentaram em seis países. 

João de Deus atendia cerca de 10 mil pessoas por mês, das quais 40% são estrangeiras. As mulheres relatam que, depois do atendimento em grupo, eram convidadas para uma consulta individual, onde os abusos seriam cometidos. O MP afirma ainda que quatro funcionários são suspeitos de ter envolvimento nos crimes. O MP afirma ainda que quatro funcionários são suspeitos de ter envolvimento nos crimes. 

Natal

A mulher de João de Deus, Ana Keila Teixeira, apareceu em público na manhã deste sábado, durante uma festa de distribuição de brinquedos para crianças carentes de Abadiânia e pediu que todos rezem para que a verdade prevaleça. Ela não concedeu entrevista.

Patrocinada todos os anos pelo médium, a festa é considerada um dos acontecimentos de Abadiânia, cidade a 112 quilômetros de Brasília. Um toldo é estendido em frente da casa do líder espiritual e brinquedos são dispostos na rua. Depois do almoço, há distribuição de bonecas, bolas e outros brinquedos.

Todos os anos, cerca de 2 mil pessoas participam do evento. Nesta edição, no entanto, a movimentação ficou muito abaixo da média, com cerca de 200 pessoas, a maioria crianças. 

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