Evaristo SA/SFP
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João de Deus selecionava vítimas e fazia abuso parecer parte do ritual, diz polícia

Inquéritos que apuram 15 casos de abuso sexual devem ser concluídos até a próxima sexta-feira

Renan Truffi, O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2018 | 22h29

GOIÂNIA - A Polícia Civil de Goiás deve encerrar até sexta-feira, 21, os primeiros inquéritos contra o médium João Teixeira de Faria, o João de Deus. A investigação, que apura 15 casos de abuso sexual, vai apontar que o líder religioso selecionava suas vítimas, normalmente mulheres entre 25 e 40 anos, e usava do desconhecimento das pessoas para fazer parecer que os atos libidinosos eram parte de um atendimento espiritual comum.

Nesta terça-feira, 18, a Justiça de Goiás rejeitou um pedido de habeas corpus em favor de João de Deus. A revogação da prisão preventiva havia sido pedida pela defesa do líder espiritual. Com a negativa, a estratégia da defesa será tentar um novo pedido para reverter a prisão preventiva por outra medida cautelar, como a prisão domiciliar.

"Apenas a liminar foi apreciada e negada. O julgamento final do habeas corpus deverá se dar após o recesso. Discordamos da decisão e vamos recorrer ao Superior Tribunal de Justiça", afirmou o advogado Alberto Zacharias Toron.

Antes de encerrar os inquéritos, a Polícia Civil de Goiás fez, por mais de quatro de horas, uma operação em pelo menos três endereços em Abadiânia (GO), cidade onde o médium ficou conhecido como líder religioso. São eles: a Casa Dom Inácio de Loyola, onde João de Deus fazia os atendimentos espirituais, a residência pessoal e o endereço de uma entidade comunitária, conhecida como Casa da Sopa, que distribui alimentação moradores carentes.

Da casa onde mora João de Deus, a polícia retirou um malote de documentos e mídias. Na Casa Dom Inácio de Loyola, os policiais passaram pelo escritório administrativo, pelos salões de cultos e também pelas salas pessoais de João de Deus.

Investigação.

Na conclusão dos inquéritos, os policiais devem explicar parte do padrão de comportamento do líder religioso com as mulheres que o acusam de abuso. Segundo as investigações, geralmente João de Deus selecionava as potenciais vítimas para um atendimento privativo e, de acordo com os depoimentos, trancava a porta do ambiente em que fazia essa consulta. 

A maioria das mulheres relata que, sentado em uma poltrona, ele pedia para que as vítimas se posicionassem de costas, com olhos fechados. Depois, iniciava uma espécie de massagem abdominal nas pacientes. De acordo com os policiais, João de Deus pedia para que as mulheres colocassem os braços para trás e, muitas vezes, repetissem a massagem na barriga dele também, às vezes sob a desculpa de "passar energia". A partir daí, o médium praticaria os abusos, fazendo com que as mulheres o tocassem nas partes genitais, ainda com os braços para trás e de costas.

É por esse tipo de comportamento que o médium deve ser indiciado por violência sexual mediante fraude, artigo 215 do Código Penal. Na avaliação da Polícia Civil de Goiás, a forma de atuar de João de Deus tinha o objetivo de fazer parecer que essas práticas eram comuns para a "cura" dos problemas espirituais.

"É uma situação em que a pessoa está sob fraude porque ela está sendo enganada de que aquele procedimento é necessário, que aquela energia vai acontecer. Por que ela não grita, não berra, não sai correndo? Primeiro porque ela está acreditando que aquilo era uma coisa importante (ao procedimento espiritual). Segundo porque ele fazia de costas, numa penumbra. Elas ficavam confusas quando estavam tocando (nos genitais do médium)", explicou a delegada Karla Fernandes, coordenadora da força-tarefa e responsável pelas oitivas com as testemunhas.

Perfil das vítimas

Muitas vezes, essas vítimas procuravam o médium porque queriam conseguir engravidar ou ainda tentavam restabelecer algum relacionamento amoroso, com o ex-marido, por exemplo. Quando as mulheres faziam menção de interromper o abuso - algumas delas choravam, outras relataram terem ficado paralisadas - João de Deus usava a fé para convencê-las do contrário. Ele argumentava, por exemplo, que elas não queriam, de fato, engravidar, por isso não permitiam o atendimento espiritual. 

Em outros casos, o líder religioso dizia que as pacientes não iam se livrar da "maldição" que as acometia porque estavam resistentes. "Quando a pessoa sentia que estava ruim, pedia para ele parar e ele começava as maldições: 'Você não está querendo mesmo', 'você não quer engravidar'. Se você está naquela situação, sente que é culpado de alguma coisa, fica meio em dúvida (sobre os abusos). O silêncio perdurou muito até pela falta de conhecimento (sobre atendimento espiritual) e pelo próprio temor, muitas relatavam: 'Se eu gritar, tem 300 pessoas que o idolatram, quem vai acreditar'", contou Karla.

Por isso, o inquérito policial deve explicar ainda que o médium tem uma personalidade dominadora e forte poder de persuasão. "O lado de líder espiritual tinha um domínio muito grande (sobre as pessoas), a ponto de familiares que tiveram conhecimento dos abusos desacreditarem das próprias vítimas e continuarem frequentando (a Casa Dom Inácio de Loyola). Como você pode julgar e dizer que essas mulheres deveriam ter falado há muito tempo? Elas falaram para pessoas próximas e pessoas próximas não deram credebilidade. Por ausência de conhecimento e por uma fé cega acreditaram que era o procedimento. Quando a gente entra naquilo do mistério, não existe um protocolo", disse a delegada. 

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