Joãosinho e Niemeyer juntos na Beija-Flor

Longe do barracão há 4 anos, carnavalesco planeja falar de Brasília, com a colaboração do arquiteto, em 2010

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

07 Fevereiro 2009 | 00h00

Há quatro anos sem pisar num barracão de escola de samba, por conta de problemas de saúde, Joãosinho Trinta poderá voltar à Beija-Flor, escola que o consagrou como o maior carnavalesco de todos os tempos. Ele negocia com a bicampeã do carnaval carioca um enredo sobre os 50 anos da inauguração de Brasília, em 2010. E tem como parceiro Oscar Niemeyer, que já se comprometeu com a criação de um dos carros alegóricos do desfile.   Dicas no blog de carnaval e o mapa do samba no Rio e em SP Os dois se encontraram ontem no escritório do arquiteto, em Copacabana, para conversar sobre o projeto, embora ele não tenha sido definido ainda pela escola, conforme informou o administrador do barracão, José Antônio Gonçalves. "Nunca fiz um carro alegórico. Mas gosto de ver o Sambódromo, a festa do povo. Foi uma obra formidável", disse Niemeyer, autor tanto do traçado de Brasília quanto do Sambódromo do Rio (que em 2009 completa 25 anos). "Ele aceitar é uma coisa formidável. Vai ser a maior apoteose", se animou o carnavalesco. A ideia é que Joãosinho trabalhe em conjunto com a comissão de carnaval da Beija-Flor. Uma das ousadias que ele já revelou será um convite a todos os presidentes da República empossados em Brasília para que desfilem lado a lado, a começar por Lula. Os que já morreram seriam representados por atores. Se aceitassem, os presidentes sairiam num carro que simbolizaria a Praça da Soberania, na Esplanada dos Ministérios, a qual Niemeyer projetou mas ainda não conseguiu ver sair do papel. Nesta semana, depois que o governo do Distrito Federal alegou falta de dinheiro para construí-la, o arquiteto afirmou ter desistido temporariamente dela. "O governo não pode fazer agora; essas coisas são assim mesmo. Quando tiver ocasião, ele (o projeto) volta", disse ontem. LIVRO Morando em Brasília há dois anos, onde se recupera das sequelas de dois AVCs, no Hospital Sarah Kubitschek, Joãosinho Trinta está no Rio para o lançamento, na segunda-feira, do livro O Brasil é um Luxo - Trinta Carnavais de Joãosinho Trinta, de Fábio Gomes, com design gráfico de Stella Villares. Para este ano, está prevista ainda a realização de um filme de ficção sobre sua vida e um documentário, segundo o empresário José Ricardo Marques, que trabalha com ele em Brasília. O livro traz muitas fotos de desfiles e conta a trajetória de Joãosinho desde o primeiro campeonato, no Salgueiro, em 1974, ano de sua estreia como carnavalesco. No futuro viriam mais oito títulos, sendo cinco consecutivos, no Salgueiro e na Beija-Flor - na década de 70, uma agremiação pequena, que só muitos anos depois viraria a gigante que é hoje. O mais célebre foi o enredo de 1989, Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia. A escola de Nilópolis tirou o segundo lugar. Sua última escola foi a Vila Isabel, em 2005. Três meses antes do carnaval, ele sofreu um derrame, e não pôde continuar seu trabalho. Joãosinho está com 75 anos e tem o lado direito do corpo paralisado. Vive da aposentadoria de ex-bailarino do Teatro Municipal do Rio e de trabalhos esporádicos. SAUDADE Hoje um espectador dos desfiles (estará num camarote este ano), ele diz que sente "saudade do ritmo do barracão". Gosta do que vê na Sapucaí, mas acredita ser possível abrir novos caminhos, a fim de inovar - assim como ele próprio fez ao longo de mais de três décadas, surpreendendo ano após ano. Essa nova via ele quer explorar na Beija-Flor em 2010. Joãosinho reconhece inovações nos carnavais de Paulo Barros, tido como o carnavalesco mais criativo da "nova geração". Considera, no entanto, que Barros peca no conjunto. "Se ele perde é por parte da coesão da harmonia com todos os pontos da escola." Fábio Gomes, maranhense como Joãosinho, se debruçou sobre sua obra por um ano. Fascinado pelos desfiles desde criança, ele narra no livro a revolução que o carnavalesco fez no carnaval, com a transformação dos enredos, a verticalização dos carros, a colocação de destaques sobre eles, a compactação das alas, o efeito luxuoso alcançado mesmo com uso de materiais pouco nobres. Inovações que elevaram definitivamente o padrão artístico dos desfiles. "A grande revolução se dá nos enredos. Até os anos 70, eles ainda eram muito ligados à historiografia oficial do Brasil. Joãosinho rompe com isso propondo coisas novas e doidas, enredos cheios de fantasias", diz o autor. Serviço: O Brasil é um Luxo - Trinta Carnavais de Joãosinho Trinta; 255 páginas; R$ 149; Centro Brasileiro de Produção Cultural

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