Jobim assume Defesa, ataca a Anac e diz que falta comando

Assumindo com ?carta branca?, novo ministro afirma que ?as instituições foram feitas para ter resultados?

Leonencio Nossa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2026 | 00h00

O novo ministro da Defesa, Nelson Jobim (PMDB), de 61 anos, disse ontem, após tomar posse como substituto de Waldir Pires (PT), que o problema no setor aéreo é de comando. A mudança na pasta só ocorre depois de dez meses de crise aérea, pontuada pelos dois maiores acidentes da história da aviação civil brasileira - só o desastre com o vôo 3054, em Congonhas no dia 17, deixou pelo menos 199 mortos. Em entrevista no Palácio do Planalto, Jobim afirmou ter "carta branca" para começar as mudanças no setor, atacando a cúpula da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). "As instituições foram feitas para ter resultados", afirmou. "Quero perguntar: esse poder (a Anac) funciona?" Jobim mesmo respondeu à pergunta, dizendo que a solução para a Anac virá "no momento oportuno". Ele classificou como "problema legal" os mandatos fixos e com estabilidade dos diretores da agência, aprovados pelo Senado. O ministro adiantou que o governo avalia a possibilidade de incluir no projeto de reestruturação de agências, em tramitação na Câmara, uma forma de demitir diretores. "Vamos examinar exatamente essa linha." O ministro ainda criticou indiretamente a composição atual do órgão, presidido por apadrinhados do ex-ministro José Dirceu e dos atuais ministros Dilma Rousseff (Casa Civil) e Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais). "Em qualquer circunstância, e nessa circunstância, só nomes técnicos deveriam ocupar cargos", afirmou. "E uma coisa quero deixar bem claro: se forem feitas mudanças - e pelas circunstâncias devem haver -, não serão partidarizadas." Ele disse que até o final de semana tomará decisões em relação ao novo presidente da Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero). Hoje, o ministro pretende avaliar toda a estrutura da Defesa para começar o processo de mudanças da pasta. "Vou me dedicar ao enfrentamento da emergência atual, a questão aérea." A uma pergunta específica se caberia ao comandante da Aeronáutica, ao ministro ou ao presidente apresentar as informações da caixa-preta do avião da TAM que explodiu em Congonhas, Jobim tentou demonstrar que comandará sozinho a área. "Aqui a parte é do ministro, quem manda é o ministro." Ele ressaltou que ações díspares do governo na área só complicaram a situação. O ministro só não propôs um prazo para acabar com o caos. "Não posso estabelecer cronologia, pois aprendi com o doutor Ulysses Guimarães que o tempo não perdoa o que a gente faz sem ele. Essa será a regra do jogo." CONSTRANGIMENTO Em tom de descontração, o novo ministro disse que aceitou o cargo após o aval da mulher. "A minha mulher achou que eu deveria aceitar", disse. Foi uma forma de se desvencilhar da pergunta sobre o motivo de ter recusado duas vezes o convite para assumir o cargo. "Recebi algumas notícias de que poderia vir a integrar o governo. Mas agora, face às circunstâncias, acabei ingressando." Jobim rebateu críticas por não ser um profissional da área. "Uma coisa é fazer a execução, a outra é o comando. Evidentemente não tenho condições de fazer ações técnicas. Quanto à estruturação do comando, não há necessidade de você conhecer a forma da execução das questões técnicas", afirmou. E lembrou o amigo José Serra, sem citá-lo diretamente. "Tivemos um ministro da Saúde que não tinha (conhecimento) de saúde e foi um grande ministro." A menção ao governador paulista do PSDB causou constrangimento entre assessores diretos de Lula. O ministro admitiu ainda que, na noite de terça-feira, conversou com Serra e com o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), sobre Congonhas, embora só ontem o Planalto falasse da saída de Pires. Por fim, o ministro informou que virá a São Paulo e visitará o aeroporto e o laboratório que auxilia na identificação das vítimas do Airbus A320. FRASES "Aqui a parte é do ministro, quem manda é o ministro" (ao ser indagado sobre quem dará informações sobre o acidente com o vôo 3054) "Não posso estabelecer cronologia (para o fim da crise aérea). O tempo não perdoa o que a gente faz sem ele" "Temos de estabelecer um sistema que funcione, e não um sistema que depende de pessoas que funcionem. Se forem feitas Mudanças (na Anac), e deve haver, não serão partidarizadas" "Evidentemente não tenho condições de fazer ações técnicas. Quanto à estruturação do comando, não há necessidade de conhecer a forma da execução das questões técnicas" Nelson Jobim Ministro da Defesa

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