Jobim decidirá se Exército continua operação em favela

Ministro da Defesa deve se reunir com comando do Exército no início da tarde para discutir procedimentos

Pedro Dantas, O Estado de S. Paulo

17 de junho de 2008 | 12h44

O general Mauro César Lorena Cid, comandante da 9.ª Brigada de Infantaria do Exército, anunciou nesta terça-feira, 17, em reunião com líderes comunitários do Morro da Providência, no centro, que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e integrantes do alto escalão do Exército estão a caminho do Rio para decidir sobre a eventual permanência das Forças Armadas na comunidade. A polícia trabalha com a investigação voltada para os possíveis laços entre traficantes e agentes militares.   VEJA TAMBÉM Militares devem ser punidos, diz Jobim Delegado diz que militar confessou ter entregado jovens no Rio Moradores protestam em frente sede do comando militar no Rio Justiça decreta prisão de militares que ocupavam morro no Rio Moradores queimam ônibus em protesto contra Exército no Rio Chefe da milícia da Favela do Batan se entrega no Rio   Segundo líderes comunitários, as obras do projeto Cimento Social no morro deverão ser retomadas até quinta-feira, mas só continuariam após a retirada das tropas. Parentes das vítimas ouviram do general o primeiro pedido de desculpas formal do Exército. Acompanhadas de advogados, as mães dos três jovens mortos foram até o Ministério Público Estadual para ter acesso ao inquérito e formalizaram uma denúncia contra a União sob a acusação de triplo homicídio qualificado.   Jobim decidiu embarcar para o Rio de Janeiro na manhã para acompanhar de perto as investigações em torno do envolvimento de onze militares na morte dos jovens. Após reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro cancelou toda a sua agenda. Ele viajou acompanhado do comandante do Exército, general Enzo Peri.   Depois de o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), chamar os militares envolvidos na morte de três jovens no Morro da Providência de "marginais" e de ter classificado o crime de "atrocidade", a única sobrevivente contou uma versão bem diferente do que aconteceu. "Voltamos de táxi do baile da Mangueira. Na praça, no alto do morro, fomos parados e um soldado meteu a mão no cordão do Wellington. Ele reagiu e foi agredido. Reclamamos e eles disseram que estávamos presos sem nenhum motivo. Levaram eles e me liberaram", disse M., de 16 anos.   O tenente, o sargento e um soldado disseram em depoimento à polícia que Wellington reagiu com palavrões à abordagem. Desde o início da ocupação militar na Providência, outras 12 pessoas foram detidas por desacato. "O Exército não pode conviver com o ilícito. O militar pode e deve deter alguém que esteja em flagrante delito", justificou o chefe de Comunicação Social do Comando Militar do Leste, Carlos Alberto Neiva Barcellos.   Ele classificou o "incidente" que terminou na morte de três jovens como um "fato isolado", que não torna insustentável a presença do Exército na Previdência. Barcellos afirmou que o Exército "repudia veementemente qualquer desvio de conduta e qualquer ação fora da legalidade". Ele informou que foi aberto inquérito militar para apurar o crime. A única informação confirmada é que os três jovens mortos foram detidos por desacato. No entanto, o comandante da tropa, cujo nome não foi divulgado, determinou que eles fossem liberados por não haver motivo para detê-los.   O secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, afirmou que o episódio comprova que o Exército não está preparado para atuar nas ruas do Rio. "Se a Polícia Militar, que vive esse problema diuturnamente há 200 anos, tem suas mazelas, uma corporação que começou a fazer isso há pouco tempo já incorrer num problema desses é uma demonstração disso", afirmou Beltrame. "É, no mínimo, um momento de retomar uma série de conceitos, rever muitas coisas." Barcellos ainda evitou comentar as críticas de Beltrame.   o governador elogiou o trabalho da Polícia Civil, que investigou o crime. "A polícia atuou com firmeza no caso desses 11 marginais que não honram a farda do Exército", disse Cabral, que está em viagem oficial à Alemanha. Ele disse esperar que o caso seja acompanhado por Lula e pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim. O governador ressaltou que o comportamento dos militares presos não condiz com a reputação do Exército, "uma instituição que merece todo o apreço do povo".   (Colaboraram Tânia Monteiro, Talita Figueiredo e Alexandre Rodrigues, de O Estado e S. Paulo) 

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