Jobim diz o que a base cala

Ainda que o método tenha sido individual - e contestável -, as razões de Nelson Jobim para deixar o governo refletem o sentimento coletivo do ministério e da base parlamentar da presidente Dilma Rousseff.

João Bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2011 | 00h00

Articulação política fraca, gestão de governo errática, estilo centralizador e autoritário são avaliações frequentes e suprapartidárias que circulam no Congresso em relação ao desempenho do governo.

As razões pelas quais deu publicidade e tom de oposição a essas críticas, só Jobim pode explicar. Do que ninguém parece ter dúvida em Brasília é que ele planejou deixar o cargo impondo um desgaste político à presidente. Foi o próprio Jobim quem indicou a premeditação ao lembrar a máxima do ex-deputado Ulysses Guimarães, segundo a qual "em política até a raiva é combinada".

O que menos preocupa o governo são as especuladas intenções por trás das críticas do ex-ministro, todas elas aparentemente inconsistentes, como uma suposta aspiração presidencial.

Inquieta o Planalto o silêncio cúmplice da base, especialmente do PMDB, de onde não saiu qualquer crítica mais do que a meramente protocolar ao seu comportamento. "Somos tratados como vassalos", desabafou um peso-pesado peemedebista.

Todos parecem abstraídos dos excessos jobinianos para saborear o conteúdo das críticas.

O PMDB gostou porque está insatisfeito com o tratamento de sócio inferior que recebe do governo, materializado não só na distribuição dos ministérios mais estratégicos ao PT, mas também na ameaça velada de virar alvo do mesmo rigor dispensado ao PR.

No limite

A insatisfação do PMDB, somada ao contexto de briga de rua em que o PR armou a ressaca da faxina nos transportes, agrava uma situação já vulnerável do governo no Senado desde a gestão Lula. E que também faz parte da continuidade deste governo. O quorum para a CPI, logo desfeito, foi um recado ao Planalto de que a capacidade de retaliação está à mão para ser usada e que a espera pelo atendimento dos pleitos da base aliada chegou ao limite. Dilma não preencheu os cargos do PMDB e nem liberou as emendas

do ano passado.

Até ele

A pilhéria do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), ao comentar as críticas feitas por Nelson Jobim à ministra Ideli Salvatti, chamando-a de "fraquinha", foi interpretada como um sinal a mais da insatisfação dos parlamentares com a articulação política do governo. E mais preocupante por partir de quem partiu. Sarney preferiu a piada - "ela não é fraquinha, é gordinha" - a se empenhar na defesa da ministra, o que confirma as dificuldades da presidente Dilma na Casa.

"Só uma fração..."

Não obstante a crise política, o que assusta a presidente Dilma Rousseff é a questão econômica. Com o agravamento do cenário externo, Dilma tem comentado com assessores diretos que a política é "apenas uma fração dos nossos problemas". Além da preocupação em impor um controle obsessivo sobre a inflação, mas sem abrir mão do crescimento, a presidente está preocupada com a agressividade comercial dos chineses no Brasil, alvo preferencial com a crise dos Estados Unidos e Europa.

TV por assinatura

Apenas uma medida provisória - a que reduz imposto dos microempreendedores - impede que seja votado no Senado o Projeto de Lei 116, que define as novas regras do setor de TV por assinatura. E tudo depende do presidente da Casa, José Sarney, a quem cabe desobstruir a pauta para que seja votado o projeto, dado como consensual.

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