Jobim diz que segurança é prioridade e que filas vão continuar

Novo ministro da Defesa critica obras da Infraero e confirma que comando da Estatal será trocado

Vera Rosa, Christiane Samarco e Leonencio Nossa, do Estadão,

26 Julho 2007 | 13h39

Ao contrário do que já chegou a pedir o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), as filas nos aeroportos não têm dia, mês e muito menos hora para acabar. Depois de receber o cargo de seu antecessor, Waldir Pires, o novo ministro da Defesa, Nelson Jobim, disse, nesta quinta-feira, 26, que a prioridade, em plena crise aérea, é decolar, e não investir na comodidade dos passageiros.   Mesmo sem querer entrar no mérito de quem foi culpado pelo acidente com a avião da TAM, no último dia 17, Jobim admitiu que é preciso trocar o comando da Infraero, estatal que administra os aeroportos e mencionou um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no fim de semana, para tratar do assunto.   "Se o preço da segurança for manter por algum tempo a fila (nos aeroportos), ela será mantida. Se o preço da segurança for o desconforto, será mantido o desconforto, porque é uma questão de opção", insistiu o ministro. Jobim ressalvou que, apesar das várias reformas nos aeroportos brasileiros, muito ainda precisa ser feito para a segurança e disse confiar num aporte de recursos de aproximadamente R$ 2 bilhões para o ministério.   "O presidente Lula já disse claramente que não se teve nenhuma visão sobre as questões relativas às estruturas de pouso e de decolagem, mas houve grandes preocupações no que diz respeito à tentação de shoppings centers e criação de cinemas", comentou Jobim. Há quatro meses - bem antes, portanto, do acidente com avião da TAM -, Lula cobrou "dia, mês e hora" para o fim do caos aéreo.   Na cerimônia de transmissão do cargo, Jobim pediu um minuto de silêncio em homenagem aos 200 mortos na tragédia e prometeu tomar decisões "até segunda-feira" para enfrentar a crise com medidas de curto, médio e longo prazos. "Não se reconstrói, não se recompõe aquilo que se perdeu. Mas essa situação nos leva a assumir a responsabilidade da segurança do vôo", argumentou.   Investimentos no setor  Jobim disse mais uma vez que tem "carta-branca" do presidente Lula para descontigenciar o orçamento da Defesa. "Logo, eu acho que vamos ter esses recursos o mais rápido possível", falou. O ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) assume a Defesa após a demissão de Waldir Pires, que foi fritado depois de dez meses de crise, deflagrada pelo acidente com um Boeing da Gol, em setembro de 2006, em que 154 pessoas morreram.   O novo ministro da Defesa confirmou que conversou com o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, e que falou para ele que no caso da crise "o que for preciso é o necessário".  Mais tarde, Bernardo confirmou a conversa e afirmou que o setor aeroportuário terá até 2010 mais R$ 2 bilhões para novos investimentos. O recurso será obtido por meio de um remanejamento dos projetos definidos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O Programa já destina R$ 3 bilhões ao setor. "O Jobim pode contar com esses recursos", disse.   Críticas à Infraero   O novo ministro fez críticas às opções de obras na infra-estrutura aeroportuária adotadas pelo Infraero. "Fizemos nos últimos tempos várias reformas nos aeroportos, mas todas dentro das perspectiva da comodidade dos usuários", disse Jobim, ao comentar que não se teve uma visão relativa às estruturas de pouso e decolagem. "Mas se teve grandes preocupações com a implantação de shopping centers e de cinemas", criticou, ponderando depois que esse era um "enfrentamento analítico" do problema.   De acordo com Jobim, o principal objetivo das medidas que devem ser tomadas a partir de agora é alcançar a segurança a qualquer preço. "Se o preço da segurança for manter por algum tempo as filas, será mantido. Se for necessário prolongar as eventuais filas para se ter segurança, é o preço que pagaremos", disse Jobim em entrevista coletiva após sua posse.   O ministro afirmou que, a curto prazo, promoverá a integração do ministério com todas os órgãos públicos a ele vinculados, como a Infraero e a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). "Não podemos deixar que haja mais comandos fora de regência", afirmou Jobim.   "Isso aqui tem que funcionar como uma orquestra, e o maestro sou eu, sob as ordens do presidente Lula. A música e a composição são do presidente. Eu executo isso, e nós vamos trabalhar exatamente com o conjunto", afirmou o novo ministro da Defesa.   Agências reguladoras   Jobim disse que o modelo da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) engessa o setor. Ele disse que pretende discutir no Congresso Nacional mudanças no órgão. "Vou examinar e estudar se a modelagem da Anac serve para a viação brasileira. Se precisar alterar, vamos alterar", afirmou. "Não podemos ficar engessados", acrescentou.   Para o ministro existe uma "generalização" na questão das agências. Na avaliação dele, o modelo genérico de órgão regulador pode não servir para todos os setores da economia. "Eu me pergunto se o modelo de agência deve ser igual para todas as áreas. Isso não tenho noção clara. Eu terei".   Nelson Jobim disse que até o final desta semana pretende ter um encontro com o atual presidente da Anac, Milton Zuanazzi, que tem mandato até 2011, aprovado pelo Congresso Nacional. Jobim evitou criticar a indicação de Zuanazzi, tido como afilhado político da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e do ministro das Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia. Jobim disse apenas que qualquer indicação não deve ter como fundamento interesses partidários.   Comentando os mandatos dos diretores da Anac, Jobim lembrou que nos anos 90, como ministro do Supremo Tribunal Federal, chegou a analisar uma decisão do então governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, de demitir os dirigentes da Agência Geral Regulatória do Estado, que tinham sido nomeados pelo antecessor dele, Antonio Britto. Jobim lembrou ter sido contra a decisão de Dutra, mas observou que cada caso deve ser analisado.

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