Jobim recebe convite 'incompleto'

Emissário de Dilma, Antonio Palocci pergunta a ministro da Defesa se ele gostaria de ser mantido no cargo, mas não dá mais detalhes

Tânia Monteiro / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2010 | 00h00

Condutor do delicado e bilionário processo de reaparelhamento das Forças Armadas, que inclui a compra de caças, Nelson Jobim foi sondado pelo deputado Antonio Palocci (PT-SP), um dos coordenadores da equipe de transição do novo governo, para permanecer à frente da Defesa na presidência de Dilma Rousseff.

Enviado pela presidente eleita, Palocci, que defende a permanência de Jobim no cargo, começou perguntando ao atual ministro se ele "teria interesse em permanecer no cargo". Palocci ouviu do ministro da Defesa que "quem tem de demonstrar interesse em ele permanecer ou não no cargo é o novo governo", e não ele. A conversa foi travada durante almoço na sede do ministério na quarta-feira passada.

Jobim, segundo apurou o Estado, pediu esclarecimentos sobre as condições de permanência. Palocci, no entanto, foi evasivo e disse que não estava autorizado a fazer outras perguntas, apenas a saber do interesse dele em permanecer no governo. Até ontem, nenhum novo contato fora feito. O diálogo foi interpretado por alguns segmentos como delicado. Mas a Defesa e a equipe de transição asseguram que não houve nenhuma trombada.

Ao justificar por que considerava que o sinal da consulta estava invertido, sendo constrangido a manifestar seu interesse em ficar, Jobim lembrou Palocci das circunstâncias que o levaram a aceitar o convite feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e assumir o Ministério da Defesa.

Na época, o País vivia a crise aérea e Lula estava decidido a tornar a pasta uma realidade, o que não tinha acontecido até então. Jobim acrescentou, ainda, que foi obrigado a se desligar de seu escritório de advocacia e que sofrera prejuízos financeiros.

O convite a Jobim é do interesse do presidente Lula, que enumera várias razões para sua permanência. Primeiro, a dificuldade de encontrar pessoas com perfil específico para comandar a área militar, uma pasta com enorme complexidade. Jobim também está no meio da condução do processo de verdadeira instalação do Ministério da Defesa e está conduzindo o embate que ainda poderá ocorrer em torno do Plano Nacional de Direitos Humanos, que se encontra no Congresso.

Jobim não tem comparecido a festividades do governo e cerimônias em que a presidente eleita esteja presente para não parecer que está se apresentando. Tem também evitado a imprensa, limitando-se a dar declarações sobre assuntos restritos à pasta.

Embates. O ministro já teve alguns embates com Dilma, quando ela era ministra-chefe da Casa Civil, principalmente em relação a questões da Infraero. Ela também não gostou quando viu uma declaração do ministro, em abril deste ano, dizendo que a popularidade do presidente Lula não garantia o sucesso de Dilma na corrida eleitoral. Em outra ocasião, comunicou ao presidente Lula que não poderia apoiar e colaborar na candidatura Dilma porque era amigo íntimo do candidato tucano, José Serra, com quem tinha dividido apartamento em Brasília e de quem tinha sido padrinho de casamento.

Este ponto, que alguns consideraram negativo, depois foi visto como sinal de lealdade ao presidente Lula porque Jobim não se envolveu em nenhuma das duas campanhas e passou a maior parte do tempo viajando.

Os interessados na permanência de Jobim lembram que ele demonstrou uma "fidelidade constitucional" ao presidente, necessária a quem exerce uma função de Estado e não política. Avaliam como positivo ainda o fato de Jobim ter poder sobre os militares e ser respeitado por eles, podendo, com isso, negociar questões delicadas, como o Plano de Direitos Humanos, e vencer qualquer tipo de resistência que possa existir contra a presidente, que foi guerrilheira.

O QUE PESA SOBRE JOBIM

Prós

PNDH: Conduziu bem o processo de construção do Plano Nacional de Direitos Humanos

Poder militar: Estruturou o Ministério da Defesa, colocando o poder militar sob o comando efetivamente de um civil

Gestão: Lançou a Estratégia Nacional de Defesa e a lei complementar que reestruturou toda a Defesa, criando o Estado Maior Conjunto, com mesmo nível hierárquico que os comandantes

Boas relações: Tem trânsito no Congresso não só nos partidos aliados ao governo, mas também na oposição, além de fortes ligações com o Judiciário, onde já foi presidente do STF

Contras

Campanha: Deu declarações e assumiu posições que demonstravam pouco apreço à candidatura Dilma. Em abril, disse que a popularidade de Lula não garantiria voto a Dilma, o que desagradou à candidata

Fator Serra: Em reunião da coordenação política de Lula, no Planalto, avisou que não poderia apoiar a candidatura Dilma porque era amigo íntimo de José Serra, com quem tinha dividido apartamento em Brasília e de quem tinha sido padrinho de casamento

Infraero: Teve embates com a ex-ministra Dilma Rousseff em relação à administração e à proposta de abertura de capital da Infraero

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