Jogral bem ensaiado não elimina cacoetes de Dilma

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a pré-candidata petista à eleição presidencial, Dilma Rousseff, fizeram um jogral bem ensaiado durante o horário de propagada destinado ao PT e veiculado em cadeia nacional de rádio e TV na quinta-feira à noite.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2010 | 00h00

A palavra mais repetida por Lula foi "Dilma": 10 vezes. E as expressões mais usadas pela pré-candidata petista foram "Brasil" e "liberdade".

Lula fez os elogios necessários a Dilma para caracterizá-la como sua candidata à própria sucessão, sem precisar afirmar isso com todas as letras: disse e repetiu que a admira, associou-a ao conceito de "competência" e comparou-a ao líder sul-africano Nelson Mandela.

Liberdade. A repetição da palavra "liberdade" por Dilma não foi acaso. Das oito falas da pré-candidata durante o programa, a mais longa foi para explicar sua atuação na oposição ao regime militar. Ela elencou as liberdades suprimidas pela ditadura, e se colocou como defensora dessas liberdades à época e agora.

Seu discurso foi editado junto à comparação que Lula fez de Dilma com Mandela. O objetivo de ambas as falas foi tentar justificar a participação da pré-candidata na luta armada contra o regime militar e dizer que ela mudou, como o País.

O destaque do tema na propaganda indica que as pesquisas internas do PT devem ter detectado que esse é um flanco vulnerável de Dilma e que precisa ser neutralizado.

Cacoetes. Dilma ainda está longe de se igualar a seu mentor na eficiência do discurso. Na comparação das "nuvens" de palavras citadas por ambos durante o programa, o presidente usou uma quantidade bem menor, e as repetiu mais vezes.

É um truque: transmitir poucas mensagens e reforçá-las pela repetição. Lula faz isso naturalmente, seus discursos são um misto de roteiro bem ensaiado e improviso.

Já Dilma leu na íntegra, ainda que interpretando as frases, quase tudo o que disse. O resultado foi que os cacoetes da escrita contaminaram a linguagem oral da candidata, ampliando em excesso seu vocabulário e diluindo a força das mensagens.

Ao ponto de a chave de seu slogan de pré-campanha, "avançar", ter se perdido no meio da nuvem de palavras.

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