Jornada dupla confunde até os próprios assessores

Rio de Janeiro.

, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2010 | 00h00

Segunda-feira, 2 de agosto, 13h55. O governador fluminense, Sérgio Cabral Filho (PMDB), candidato à reeleição, entra no auditório do Comitê Olímpico Brasileiro, na Barra da Tijuca, para evento de campanha ao lado de Dilma Rousseff (PT). Com a jaqueta do COB, discursou e deu entrevista no horário de trabalho.

Um horário de almoço flexível, de duração incerta, e a inexistência de restrições legais é a justificativa para ocupar com campanha eleitoral parte do que deveria ser expediente de trabalho. Dias depois do evento do COB, às 10h de uma quarta-feira, Cabral estava na Capela São Pedro Príncipe dos Apóstolos, no Rio Comprido, assistindo à Solene Celebração Eucarística pelo Dia do Padre. A missa constava na agenda de candidato.

Pernambuco.

O governador Eduardo Campos (PSB), que disputa a reeleição, prestigia, "como candidato", a Missa do Vaqueiro, em Serrita, no sertão, a 544 quilômetros do Recife. A visita foi divulgada na sua agenda de governador. As fotos, distribuídas pela secretaria estadual de Imprensa. Para a Procuradoria-Geral do Estado, houve "um equívoco" e novos deslizes não mais acontecerão.

Diariamente são divulgadas duas agendas de Campos, sendo os eventos institucionais normalmente ocorrem entre 8 e 18 horas. As de candidato antes ou depois deste horário e nos fins de semana. Mas as agendas se confundem. Dia 29 de julho, por exemplo, visitou um hospital em Petrolina como governador, mas viajou utilizando a estrutura da campanha porque depois cumpriu extensa programação de candidato.

Minas.

O governador Antonio Anastasia (PSDB) cumpre diariamente atividades de governo, mas muitas vezes o tempo reservado a elas é menor do que à campanha, que inclui viagens pelo interior mineiro, sempre acompanhado do ex-governador Aécio Neves (PSDB), candidato ao Senado.

Na última quarta-feira, por exemplo, o governador iniciou sua a agenda de campanha às 9h. Cumpriu um único compromisso do Executivo: despachos internos, às 11h. Às 13h, retomou a agenda eleitoral, viajando com Aécio e o presidenciável José Serra.

Bahia.

Virou tema recorrente nas aparições públicas do governador baiano, Jaques Wagner (PT), a "jornada dupla" de trabalho. À frente nas pesquisas, acostumou-se a dizer que está tendo mais trabalho que os concorrentes para disputar a vaga. "O bom é que o esforço está sendo reconhecido", argumenta. Boa parte das noites e dos finais de semana do governador tem sido ocupada com compromissos.

Ceará.

Para Cid Gomes (PSB), conciliar a agenda de governador com a de candidato tem sido muito cansativo. "Estou até gripado. Tem que ter muito pique." Ele pretendia concentrar a agenda de candidato só nos fins de semana e fora do expediente, mas acabou mudando de ideia.

Os assuntos de governo acabaram espremidos no turno da tarde. De manhã e à noite, entra em cena o candidato. Os papéis se confundem e até os assessores não sabem quando Cid está governador ou candidato.

Numa reunião com servidores estaduais em um hotel da orla de Fortaleza, Cid prometeu a eles aumento de 2% nos salários a partir de 2011, caso seja reeleito. Comprometeu-se ainda a mudar a data-base dos servidores para o mês de janeiro.

Maranhão.

A governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB), já utilizou oito dias úteis de trabalho para viajar pelo interior do Estado em campanha à reeleição. Como candidata, já percorreu 40 municípios, sendo 29 deles durante dias úteis de trabalho.

A coordenação de campanha de Roseana alega que a campanha não atrapalha as atividades de gabinete da governadora, que despacha de segunda a quarta-feira, no Palácio dos Leões ou em sua casa.

Mato Grosso.

Na semana passada, Silval Barbosa (PMDB) manteve sua agenda de governador misturada à de candidato. A agenda antes recheada do governador ficou vazia. Já a do candidato foi diariamente divulgada.

Na segunda-feira, passou toda manhã concedendo entrevistas como candidato. Às 12h, almoçou com empresários. Às 14h, participou da reunião do conselho político de campanha. Já às 18h visitou uma família de quem recebeu apoio político. Às 19h, teve reunião com militares e familiares, e às 20h45, mais entrevistas.

Mato Grosso do Sul.

Por duas vezes na semana passada a Justiça Eleitoral barrou atividades do governador de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (PMDB). Na condição de governador, ele visitou Corumbá, onde queria fazer propaganda institucional de inscrições para aquisição da casa própria. O pedido foi negado pelo TRE. Em seguida, alegou ser preciso "conscientizar as pessoas quanto ao uso correto da água e a necessidade de fazer ligação de esgoto". O tribunal também barrou.

Rio Grande do Sul.

A governadora Yeda Crusius (PSDB) deixou Porto Alegre no final da manhã de quarta-feira e desembarcou em Santa Rosa ao meio-dia. Como candidata, participou de um almoço com lideranças políticas. Como governadora, visitou obras nos hospitais Dom Bosco e de Caridade. Segundo fontes, a viagem oficial foi em avião do Estado e os deslocamentos em terra para atividades políticas foram em carros alugados pela coligação.

Pará.

A governadora Ana Júlia Carepa (PT) divide seu tempo entre despachos administrativos e atividade de candidata. E se queixa que a dupla rotina de trabalho a deixa "exausta". Em seus diários de campanha, porém, demonstra satisfação: "O povo é o meu maior guaraná em pó". R

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