Jornalista cubano é morto a tiros na zona sul do Rio

Rafael Zamora Díaz foi assassinado quando chegava em casa nesta segunda, 31; líder religioso, no ano passado ele teria procurado o MP e a OAB afirmando que vinha recebendo ameaças

Felipe Werneck, O Estado de S. Paulo

02 de fevereiro de 2011 | 19h41

RIO - O jornalista cubano Rafael Zamora Díaz, de 51 anos, presidente-fundador da Sociedade de Ifá e Cultura Afro-Cubana no Brasil, foi assassinado a tiros na noite desta segunda-feira, 31, quando estacionava o seu Meriva ao chegar em casa, no Cosme Velho, zona sul do Rio. Em meados do ano passado, o líder religioso ("babalawo") teria procurado a Assembleia Legislativa, o Ministério Público do Estado e a Ordem dos Advogados do Brasil para entregar um dossiê detalhando ameaças que vinha recebendo.

 

A deputada estadual Cidinha Campos (PDT) confirmou nesta quarta-feira, 2, que Díaz foi recebido em seu gabinete, acompanhado de um advogado, no segundo semestre de 2010. "Foi durante a campanha, não o encontrei pessoalmente, ele foi recebido pelo meu chefe de gabinete. Na ocasião, disse que sofria perseguição religiosa e contou ter procurado a polícia e o MP. Já estava assistido, tinha feito tudo o que eu poderia fazer", declarou Cidinha. O chefe de gabinete da deputada informou que o foco da conversa com o cubano foi a perseguição religiosa, mas acrescentou que "havia embutida a história de alguém traído". "Ele não falava textualmente, mas dava a entender essa preocupação." Segundo parentes da vítima, a motivação do crime teria sido passional.

 

A OAB do Rio informou que Díaz entregou à Comissão de Igualdade Racial, em agosto de 2010, um "histórico de denúncias de descriminação racial e perseguição religiosa, que ainda está tramitando". Também procurado pela reportagem, o MP não havia retornado o contato até as 19h de hoje. Em processo que tramita em segredo de justiça na 19.ª Vara Criminal, Díaz é acusado de crime ambiental por supostos maus tratos a animais em cultos religiosos. Durante essa investigação, uma arma teria sido encontrada na casa do religioso.

 

A polícia informou que o cubano foi executado dentro do carro com sete tiros, por volta das 22 horas de terça, em uma praça na esquina com a Ladeira dos Guararapes, a cerca de dez metros de sua casa. Ele morreu no local, e o assassino fugiu. A Divisão de Homicídios assumiu a investigação. "O dossiê está sob análise. As informações estão sendo checadas para sabermos a real motivação do crime", disse o delegado Felipe Ettore, titular da DH. O filho do cubano, que morava com ele, prestou depoimento, mas não deu entrevista. O advogado do jornalista não foi localizado pela reportagem.

 

Díaz morava no Brasil havia pelo menos 14 anos. Ifá é um oráculo que, segundo consta, nasceu no Antigo Egito e migrou para a África Ocidental, especialmente para as regiões onde hoje estão localizados a Nigéria e Benin, informa o site da instituição fundada pelo religioso. "Nestas terras encontrou condições de desenvolver-se e estabelecer-se até nossos dias, tendo chegado a Cuba e ao Brasil no século passado com os escravos Nagôs."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.