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Jornalista Napoleão Sabóia morre aos 82 anos no Rio

'Napô', como era conhecido entre amigos, foi por cerca de 20 anos correspondente em Paris do 'Estadão' e do 'Jornal da Tarde', cobrindo predominantemente a área cultural

Redação, O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2020 | 16h54
Atualizado 24 de agosto de 2020 | 16h23

Morreu neste sábado, 8, em seu apartamento em Copacabana, no Rio, aos 82 anos, o jornalista Napoleão Sabóia. Maranhense, tendo iniciado sua carreira no jornal O Imparcial, "Napô", como era conhecido entre amigos, foi por cerca de 20 anos correspondente em Paris do Estadão e do Jornal da Tarde, cobrindo predominantemente a área cultural.

De volta ao Brasil, em 2009, divorciado, instalou-se no Rio de Janeiro com seus dois filhos, Bruno e Antonio. “Ele deixou por todo lado a fama de um sujeito muito bom, comunicativo e falador”, diz Bruno, “que tinha entre amigos tanto figuras da cultura carioca quanto balconistas de bares na Rua Santa Clara”, ou no Clube do Choro, que costumava frequentar na Rua da Carioca. 

Velho amigo desde seus tempos em São Luís, o ex-presidente José Sarney disse ter recebido “com grande comoção e tristeza” a notícia de sua morte – os dois trabalharam juntos na redação de O Imparcial. Ao assumir a Presidência, em 1985, Sarney o levou para o Planalto, onde “Napô” se encarregou da área cultural na imprensa internacional. “Com ele tive uma convivência fraternal durante o resto da vida”, disse na nota o hoje senador maranhense. “Era um grande talento e grande intelectual. Ficou devendo uma coletânea de suas excelentes entrevistas com figuras do mundo intelectual e político europeu.”

Sarney também destacou seu relacionamento “com grandes intelectuais e escritores, como Maurice Druon, Claude Lévi-Strauss, Denis Tillinac, e com o mundo político, tendo acesso, como correspondente de um grande jornal brasileiro, a (François) Mitterrand, (Jacques) Chirac, (Michel) Rocard, (Valéry) Giscard”.

Em São Paulo, ele passou pela Folha de S. Paulo até se mudar para Paris, onde atuou na Radio France Internacional, e na Veja, antes de se tornar correspondente do Estadão.

Na EBC

Assim que chegou ao Rio, em 2009, o ex-correspondente foi trabalhar na Empresa Brasileira de Comunicação, a EBC, onde ficou até o início do ano passado – não permaneceu após a chegada do novo governo com Jair Bolsonaro. “Ele se movimentava por todo lado, não queria parar de trabalhar, tinha horror à aposentadoria”, lembra o filho Bruno, que vivia com ele no apartamento da Rua Santa Clara. 

No fim do ano passado, Napoleão veio do Rio a São Paulo para lançar seu livro Senhor da Festa, onde conta histórias bem-humoradas de sua vida profissional entre Maranhão, São Paulo e Paris.

Da capital francesa, onde mora, a jornalista Rosa Freire d’Aguiar mandou aos amigos mensagem em que assinala que “Napô” vivia momentos difíceis no Rio. “Ele era muito amigo de nós todos, independentemente das brigas que volta e meia precisava ter com cada um”, escreveu no Facebook. “Vez ou outra trocávamos zaps. Foi assim quando, há oito dias, morreu o (ex-correspondente do Estado) Gilles Lapouge.”

Trabalhando na ocasião em Paris, para a revista Época, o jornalista Moisés Rabinovici fala dessa dupla – aliás, trio. “O trio de Paris do Estadão agora se reencontra em algum lugar inescrutável do pós-vida: Reali Júnior, Gilles Lapouge e Napoleão Sabóia.” Da dupla Reali-Napoleão, o editorialista do Estadão Rolf Kuntz tem uma história ainda dos anos 70. “Conheci Napoleão em 1974, no apartamento do grande Reali Jr., em Paris. ‘Napô’ ia fazer um teste, pelo telefone, para trabalhar como correspondente de uma rádio paulistana. Radialista veterano, Reali passou aquela manhã treinando o amigo. Deu certo.” Ele era “uma personalidade esfuziante, um furacão, tinha mais ideias do que conseguia processar”, resume Ricardo Augusto Setti, com quem “Napô” trabalhou ainda no início da carreira, em Brasília.

Rabinovici guarda, da antiga amizade, momentos divertidos – a começar pelo fato de ele se chamar Napoleão e morar em Paris. “O nome dele intrigava os franceses, que não dão o nome de seus heróis a ninguém. Testemunhei a vez em que fomos alugar um carro, pediram-lhe o nome e, depois que ele o disse, o atendente resmungou: “Não estou brincando...”

Nos últimos tempos, Napoleão havia informado ao filho Bruno que, quando morresse, queria ser cremado. Até o início da noite de sábado, 8, Bruno, ao lado do corpo do pai no IML, fazia contatos com o pessoal da Capela da Santa Casa, em Copacabana, para marcar um horário de sua despedida e possível cremação para a próxima terça-feira.

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