Jornalistas são capturados e torturados em favela carioca

Repórter, fotógrafo e motorista foram agredidos com socos, choques, sufocamento com saco plástico

Nicola Pamplona, O Estado de S. Paulo

31 de maio de 2008 | 19h58

Integrantes de milícia que atua na zona oeste do Rio são acusados de seqüestrar e torturar uma equipe de reportagem do jornal carioca O Dia, em uma favela. O crime teria ocorrido na favela do Batan, em Realengo, onde os jornalistas viviam havia duas semanas para preparar uma reportagem sobre a ação dos milicianos na vida da comunidade. Os crimes ocorreram no dia 14 de maio, mas a direção do jornal informou que adiou a divulgação para não atrapalhar as investigações policiais. Por motivos de segurança, o nome das vítimas não foi divulgado. Em nota oficial assinado pelo diretor de redação, Alexandre Freeland, "os três profissionais estão a salvo, em bom estado de saúde, em local seguro, e vêm recebendo irrestrito apoio da empresa, incluindo acompanhamento psicológico". O caso foi encaminhado à Secretaria de Segurança Pública, que informa já ter identificado suspeitos. A repórter, o fotógrafo e o motorista do jornal estavam vivendo em uma casa alugada na favela Batan e foram denunciado às lideranças da milícia que controla o local. Segundo relatos do jornal O Dia, o fotógrafo e o motorista foram surpreendidos por 10 homens armados e com toucas ninja quando chegavam ao Largo do Chuveirão para tomar cerveja a convite de moradores locais. O grupo, então, foi buscar a repórter, que estava em casa. Eles foram mantidos em cárcere privado por 7h30, período em que foram agredidos com socos, pontapés, choques elétricos, sufocamento com saco plástico e roleta russa. Os criminosos ameaçaram matar os reféns, mas os liberaram após a promessa de que não denunciariam as agressões. Segundo o relato feito pelas vítimas, havia policiais no cativeiro, que em determinado momento chegou a ter mais de 20 pessoas, entre agressores e espectadores. A ação das milícias em favelas do Rio é hoje uma das principais preocupações da Secretaria de Segurança Pública, uma vez que há indícios de que grande parte delas são comandadas por militares. Em declarações dadas no fim de fevereiro, o secretário de segurança, José Mariano Beltrame, informou que havia 115 investigações sobre o tema em curso. Na ocasião, ele classificou a atuação de policiais nas milícias como "desvio de conduta muito sério". Os milicianos se espalharam pelas favelas da periferia do Rio nos últimos anos como uma alternativa ao tráfico de drogas. Prometem segurança aos moradores, mas, em geral, impõem rígidas normas de conduta nas comunidades, além de monopolizarem o comércio de gás de botijão, instalações piratas de TV a cabo e transporte, entre outros. Já ganharam a alcunha de "comandos azuis", em alusão à facção Comando Vermelho, que disputa o controle do tráfico na cidade. Segundo levantamento divulgado por O Dia, as milícias dominam atualmente 78 favelas da cidade. Os relatórios enviados pela equipe do jornal enquanto viviam na favela do Batan indicavam a coexistência de milicianos com policiais responsáveis pela segurança na região.

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