Jornalistas são torturados por milícia

Equipe do jornal ?O Dia? ficou refém em favela por mais de 7 h, no dia 14 de maio, e recebeu ameaças de morte

Nicola Pamplona, O Estadao de S.Paulo

31 de maio de 2008 | 00h00

Integrantes de uma milícia que atua na zona oeste do Rio seqüestraram e torturaram uma equipe de reportagem do jornal carioca O Dia, na favela do Batan, em Realengo. Os crimes ocorreram no dia 14 de maio, mas a direção do jornal informou que preferiu divulgar o episódio somente ontem, para não atrapalhar as investigações policiais. Os três funcionários do jornal - uma repórter, um fotógrafo e um motorista - viviam havia duas semanas na favela para preparar uma reportagem sobre a influência da ação dos milicianos na vida da comunidade.Os jornalistas estavam morando em uma casa alugada na comunidade e foram denunciados às lideranças da milícia que controla o local. Segundo relatos do jornal O Dia, o fotógrafo e o motorista foram surpreendidos por dez homens armados e com toucas ninja quando chegavam ao Largo do Chuveirão para tomar cerveja, a convite de moradores locais. O grupo, então, foi buscar a repórter, que estava na casa alugada. Os três foram mantidos em cárcere privado por mais de sete horas, período em que sofreram agressões como socos, pontapés, choques elétricos, sufocamento com saco plástico e roleta-russa. Os criminosos ameaçaram matar os reféns, mas os liberaram após a promessa de que não não seriam denunciados. Segundo o relato das vítimas, havia policiais dentro do cativeiro, que em determinado momento chegou a ser ocupado por mais de 20 pessoas, entre agressores e espectadores.Por motivos de segurança, o nome dos profissionais seqüestrados não foi divulgado. Em nota oficial assinada pelo diretor de redação de O Dia, Alexandre Freeland, o jornal informou que "os três profissionais estão a salvo, em bom estado de saúde, em local seguro, e vêm recebendo irrestrito apoio da empresa, incluindo acompanhamento psicológico". O caso foi encaminhado à Secretaria de Segurança Pública, que informa já ter identificado suspeitos. A ação das milícias em favelas do Rio é hoje uma das principais preocupações da Secretaria de Segurança Pública, uma vez que há indícios de que grande parte delas é comandada por militares. Em declarações dadas no fim de fevereiro, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, informou que havia 115 investigações sobre a ação de milícias em curso. Na ocasião, ele classificou a atuação de policiais nas milícias como "desvio de conduta muito sério". Os milicianos se espalharam pelas favelas da periferia do Rio nos últimos anos como uma alternativa ao tráfico de drogas. Prometem segurança aos moradores, mas, em geral, impõem rígidas normas de conduta nas comunidades, além de monopolizarem o comércio de gás de botijão, instalações piratas de TV a cabo e transporte, entre outros. Já ganharam a alcunha de "comandos azuis", em alusão à facção Comando Vermelho, que disputa o controle do tráfico na cidade. Segundo levantamento divulgado por O Dia, as milícias dominam atualmente 78 favelas da cidade. Os relatórios enviados pela equipe do jornal durante o período passado na Favela do Batan indicavam a coexistência de milicianos com policiais responsáveis pela segurança na região.

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