Josyas, o sucesso das quebradas

Dono de uma história que enche de esperança qualquer paulistano que acredite num futuro melhor, Josyas Silva Mendes, de 31 anos, nasceu em berço evangélico, no violento Jardim Letícia, bairro da zona sul de São Paulo. Aos 16, começou a entender o que significava crescer na periferia ao perder seu melhor amigo, Dim Jones, assassinado por um pé de pato - expressão usada para designar os matadores nas décadas de 80 e 90. "Ele se envolveu com drogas. Num domingo de manhã, o irmão apareceu em casa dando a notícia. Foi um choque", conta. Seria o primeiro de uma série. "Na semana passada, um morreu enforcado." Josyas passou ileso - ao menos aparentemente - às tragédias da vizinhança. Hoje, casado, pai de três filhos, virou o cabeleireiro das quebradas mais conhecido fora de seu pedaço. Ele começou fazendo a cabeça dos manos, rappers e da moçada descolada da região - do Capão Redondo, o cliente mais conhecido é Mano Brown, do grupo Racionais MC?s. E acabou conquistando clientes de bairros paulistanos descolados, como a Vila Madalena, e de outras cidades, como o Rio, muitos deles famosos. O compositor carioca Jorge Ben Jor, que vive no Rio, manda um carro buscar Josyas quando vem a São Paulo. "Há um ano, cheguei a pagar a passagem dele para o Rio. Precisava cortar o cabelo e não tinha como vir para cá", conta Ben Jor. "Foi ótimo. Além de cortar meu cabelo, nós tiramos um som. Ele levou o contrabaixo." Foi aí que Ben Jor percebeu que o amigo cabeleireiro também tinha talento musical. O compositor de sucesso é o padrinho da banda de reggae de Josyas, Diébano. Na última vez que Ben Jor foi convidado para o Altas Horas, programa de Serginho Groisman na TV Globo, disse à produção que só iria se levasse Josyas e sua banda. E assim foi. Os dois tocaram juntos no ar. No dia 20, Josyas lançou seu primeiro CD, África, Brasil, Jamaica, que tem uma música de Ben Jor, Brother. O ator Caio Blat também faz parte da lista de clientes vip de Josyas. "Ele me conheceu durante as filmagens de Bróder (assim mesmo com ?d?)", explica Josyas. "Um dia, todo o elenco do filme apareceu por lá para cortar o cabelo. O Caio gostou. E voltou várias vezes." Josyas já recebeu inúmeros convites para abrir seu salão em outras regiões da cidade. Mas ele continua na área do Capão Redondo, mais especificamente no Jardim Parque Alves de Lima. "O meu lugar é aqui na periferia. Se todo mundo que dá certo vai embora, a região não melhora nunca." Mas, além de um cabeleireiro das quebradas da zona sul - onde há centenas de estabelecidos em pequenas portinhas de garagem -, ele é uma mistura de analista, conselheiro e amigo. São mais de 50 cortes por dia. Cada um que senta em sua cadeira conta a vida. RELATOS "Tem gente que vem aqui há mais de dez anos. Aparece para cortar cabelo, mas, na verdade, quer falar sobre o casamento, dos problemas com a família", conta. "Outros desabafam perseguições policiais e têm ainda aqueles que se enrolam com esquemas pesados. Tudo passa pela minha cadeira." Josyas está escrevendo um livro com as boas e as más histórias que presenciou. "Claro que troquei o nome dos meus personagens", avisa. Ele já tem mais de 500 histórias escritas. "Nem tudo é tristeza. Tem gente que se dá bem." Cliente e morador do bairro, o descendente de japonês Willy Oliveira Yamachita, de 27 anos, cursou faculdade de Sistemas de Programação e recentemente abriu uma loja de motopeças. "As famílias do bairro estão melhorando", diz Fernando Aparecido dos Santos, de 40 anos, um cliente que trabalha com locação de impressoras. Segundo Josyas, hoje a periferia não é mais tão violenta como na sua adolescência. "Ninguém se esquece, por exemplo da chacina do Cemitério São Luís, na década de 90, quando teve gente executada ao redor da fogueira." Nos dias de frio, é costume acender o fogo e sentar em volta para conversar. "Hoje está mais sossegado." Alguns de seus cliente foram parar atrás das grades. "Foi por causa deles que durante anos fiz trabalho voluntário no Carandiru. Cortava gratuitamente o cabelo dos presos uma vez por semana." E foi lá, no extinto complexo penitenciário, que ele aprimorou suas técnicas de boxe, com o professor Fúria Negra, um lutador alto e aterrorizantemente forte. Josyas continua com seu trabalho social, mas agora na própria periferia. PONTO DE ENCONTRO Montado num sobrado, o salão de Josyas reúne outros serviços, como estúdio de tatuagem, bar de açaí e sala de música. Animado, o lugar virou ponto de encontro dos manos, que se sentem em casa. Alguns aparecem lá só para jogar videogame. É de graça. Outros aproveitam a cama de supino, instalada na garagem, para se exercitar. Nos fundos da casa, à noite, o açaí atrai fregueses. Há ainda quem apareça para grafitar as paredes. "A periferia precisa de mais pessoas como Josyas", resume Ben Jor. "Ele é talentoso e tem bom coração."

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

26 Outubro 2008 | 00h00

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