Jovem pego com maconha acusa Exército de tortura no Rio

Ele teve 70% do corpo queimado, mas não corre risco de morte; Comando Militar do Leste deu outra versão

Pedro Dantas, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2008 | 16h34

Um adolescente de 16 anos acusou nesta quinta-feira, 6, um grupo de cinco militares da 9ª Brigada de Infantaria Motorizada de espancá-lo, torturá-lo com choques elétricos e depois atear fogo em seu corpo, na quarta-feira, dentro de uma unidade desativada do Exército, na Rua Professor Carlos Venceslau, em Realengo, zona oeste do Rio. De acordo com J.S.G., a ação teria sido uma punição por ele estar fumando maconha em área militar. "Sei que eu estava errado, mas me barbarizaram", disse o jovem, que está internado no Centro de Tratamento de Queimados do Hospital Pedro II, em Santa Cruz, com queimaduras de primeiro e segundo graus nas pernas, braços e rosto. O globo ocular esquerdo foi atingido por um líquido ainda não identificado, mas os médicos garantem que ele não corre risco de morrer ou de perder a visão.   Veja também: Militares brasileiros colecionam denúncias de violência     J. contou que foi impedido de ver as identificações que os militares normalmente usam na farda, mas seu depoimento à 33ª Delegacia de Polícia Civil de Realengo já permitiu ao comando da 9ª Brigada de Infantaria identificar a guarnição que abordou o rapaz e um outro homem que consumia entorpecentes no local. Em nota, o Comando Militar do Leste (CML) apresenta uma outra versão. Segundo o Exército, uma patrulha usou spray de pimenta para deter dois invasores, que teriam tentado fugir. Eles teriam sido presos e liberados por volta das 16 horas. A nota afirma que outros militares e civis presenciaram o fato. Um Inquérito Policial Militar (IPM) foi instaurado. A 33ª DP informou que o caso foi transferido para a Polícia Federal, que até esta tarde não havia recebido o inquérito.   Mãe do adolescente o acompanha no hospital onde está internado   No hospital, J. disse que foi flagrado pela guarnição junto com um outro homem e não tentou fugir. Os militares mandaram os dois olharem para o chão. Segundo ele, a guarnição teria feito contato por telefone com um tenente. "Eu ouvi o tenente responder 'dá três minutos para eles sumirem daí ou vou aí e mato eles'. Em seguida, eles liberaram o outro rapaz que tinha 23 anos, porque acharam que ele era menor e mandaram que eu ficasse", contou o adolescente.    De acordo com o relato de J., os militares agiram com frieza durante a tortura. "Eles não me xingaram, apenas me davam tapas. Eu olhava para o chão e logo senti no corpo um líquido que ardia. Acho que era um spray. Depois vieram os choques. No final, me tacaram fogo e me mandaram correr", descreveu J.   O adolescente reconheceu para a família que é usuário de maconha há um ano, desde a época em que largou os estudos na quarta série. "Ele saiu de casa dizendo que ia jogar bola. Voltou quase nu aos berros e entrou direto no chuveiro, contou a dona de casa, Maria Célia Furtado, de 57 anos, que adotou J. aos três anos quando ele foi abandonado pela mãe. Ajudada por vizinhos, ela o levou para o Hospital Albert Schweitzer, em Realengo, onde o menino recebeu os primeiros socorros e foi transferido para o Hospital Souza Aguiar, no centro, para uma avaliação oftalmológica. Com dores, ele foi internado no Pedro II. "O corpo ainda dói muito, mas minha preocupação é com meu olho", lamentou J.   A Comissão de Direitos Humanos OAB-RJ afirmou que vai cobrar explicações do Exército sobre o caso. Familiares de J. afirmam que devem entrar com um pedido de indenização contra a União. Na sala de espera, enquanto ouvia os gritos do filho adotivo durante a troca de curativos, Maria Célia lembrou o caso do jovens favelados entregues por militares a traficantes de um morro rival em junho. " Quando via a história dos rapazes do Morro da Providência pensei que isto nunca aconteceria comigo. Sou evangélica e vivo para a igreja. Será que estas pessoas não tem coração?"   Atualizado às 19h09 para acréscimo de informações

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