Jovem pode ter sido presa para garantir sexo a detentos no Pará

Governadora afasta policiais e diz que caso de L., que ficou 15 dias em cela masculina, pode não ser o único

Alexandre Rodrigues e Carlos Mendes, do Estadão,

22 de novembro de 2007 | 01h56

A governadora do Pará, Ana Júlia Carepa (PT), afastou na quarta-feira, 21, dois delegados envolvidos no caso da garota L., que ficou presa 15 dias em uma cela com 20 homens. Ela admitiu que o caso que chocou o País, ocorrido em Abaetetuba, a 89 quilômetros de Belém, pode não ser um episódio isolado. E disse que autoridades suspeitam que a jovem tenha sido presa para viabilizar sua exploração sexual pelos presos. Veja também:Presos cortaram cabelo de menina para disfarçarPromotor defende MP no caso de moça presa no PAOAB do Pará critica MP e Justiça por prisão de moça Na quarta-feira, a polícia paraense determinou a transferência da Delegacia de Parauapebas (a 543 quilômetros de Belém) para Marabá de uma mulher de 23 anos, acusada de porte ilegal de arma, que estava presa em uma mesma cela com 70 homens. O delegado, André Albuquerque, justificou-se à TV Globo, dizendo que faltam cadeias públicas. Ana Júlia disse que seu governo não tinha conhecimento da prisão de mulheres com homens no interior do Estado, apesar de não haver carceragem. A governadora afirmou ter ficado surpresa ao ser informada, na noite de segunda-feira, da denúncia de estupro de L. em troca de comida. "Chocou a mim como mulher e como governadora", disse no Rio, em um almoço com empresários. Ela afirmou que, além de afastar o superintendente da Polícia Civil da região do Baixo Tocantins, Fernando Cunha, e a delegada Flávia Verônica - que fez o flagrante de tentativa furto que provocou a prisão de L.-, determinou uma investigação rigorosa sobre o caso. "Instauramos um inquérito para apurar responsabilidades e vamos punir de forma exemplar. Se ela tem 15, 20, 50, 80 ou até 100 anos, não importa. Uma mulher não poderia estar presa em uma cela com homens", afirmou a governadora. "Infelizmente, essa é uma prática lamentável que nós ficamos sabendo que já acontece há muito tempo. É bom isso se tornar público, para que todos possam atuar para que esses atos não se repitam. Pode não ser um caso isolado, pode ser um caso que inclua exploração sexual", afirmou. Ana Júlia destacou, no entanto, que esse não é um problema apenas do seu Estado. Ela insistiu que não tinha conhecimento do que se passou em Abaetetuba, mas admitiu que podem ter ocorrido outros casos. A governadora cobrou que o Poder Judiciário e o Ministério Público do Pará assumam sua responsabilidade no episódio e punam os negligentes. Depoimento A corregedora da Polícia Civil, Joaquina Pereira, ouviu L. em depoimento sigiloso no fim da manhã de quarta-feira. As declarações foram acompanhadas pela coordenadora do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedeca) do Pará, advogada Celina Hamoy. L. reafirmou as acusações contra policiais e presos. Afirmou que sofreu agressões e foi obrigada a fazer sexo com alguns dos detentos em troca de comida. O Ministério Público abriu procedimento criminal para investigar o caso. A presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil no Pará (OAB-PA), Mary Cohen, criticou a atuação dos representantes do Ministério Público, da Justiça e da Defensoria Pública de Abaetetuba. "Como é que, em um município tão pequeno, os três órgãos não tomaram conhecimento disso? Essa moça é o maior exemplo hoje de uma cidadã no Brasil com todos os direitos violados", disse a advogada. Ela afirmou que houve "omissão" do Ministério Público de Abaetetuba, que só descobriu 15 dias depois que a jovem estava presa em uma cela com 20 homens.

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