Jovem que acusa Exército de tortura é levado a hospital militar

Advogado diz que crime de tortura está qualificado; 5 soldados que participaram da ação foram identificados

Pedro Dantas, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2008 | 19h23

O jovem J.S.G, de 16 anos, que acusa soldados da 9.ª Brigada de Infantaria Motorizada de tortura, foi transferido nesta sexta-feira, 7, pelo Exército para um hospital militar - o Hospital da Força Aérea do Galeão, na Ilha do Governador, na zona norte do Rio. A instituição tem um Centro de Tratamentos de Queimados que é referência no Estado. A mãe de J., Maria Célia Furtado, disse que recebeu garantias de segurança para seu filho.   Veja também: Jovem pego com maconha acusa Exército de tortura no Rio Militares brasileiros colecionam denúncias de violência   "Apesar de ser um hospital militar, a família se sentiu segura por ser uma instituição de excelência. Trata-se de uma forma do início do processo de reparação", afirmou João Tancredo, presidente do Instituto dos Defensores dos Direitos Humanos, que também advoga para as famílias dos jovens do Morro da Providência assassinados por traficantes do Morro da Mineira, depois de serem entregues aos criminosos por militares.   Para Tancredo, o crime de tortura praticado pelos militares no caso de J. já está configurado. Ele espera agora o resultado do laudo do Instituto Médico Legal, que pode apontar, dependendo da gravidade das lesões, a tentativa de homicídio. O registro de ocorrência foi remetido da 33.ª Delegacia de Polícia (Realengo) para a Polícia Federal, já que o episódio ocorreu dentro de uma instituição federal.   J. e um amigo invadiram uma fábrica de cartuchos do Exército, já desativada, em Realengo, para fumar maconha. Eles foram flagrados e dominados pelos soldados. O amigo de J. conseguiu fugir, mas o adolescente conta que foi espancado, submetido a sessões de choque e, por fim, os militares teriam jogado uma substância química no seu corpo e atearam fogo. Os soldados alegam que usaram apenas spray de pimenta para imobilizar os invasores, que teriam sido liberados em seguida.   O capitão Daniel Guimarães, do Comando da 9.ª Brigada de Infantaria Motorizada, informou que três dos cinco soldados que participaram da sessão de tortura foram identificados, mas não estão presos. "Cumprem funções internas no quartel", afirmou.   O Inquérito Policial Militar (IPM) aberto para investigar o caso será concluído em 30 dias. Nesta sexta, peritos do Exército, que acompanham o IPM, recolheram fragmentos da pele do jovem para tentar determinar qual produto inflamável foi jogado sobre ele, pois o spray de pimenta teria apenas ação irritante, segundo os militares.   A Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República confirmou que abriu procedimento investigatório sobre o caso. Antes da transferência de J., o presidente da comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa, Alessandro Molon (PT), visitou o adolescente no hospital e disse que convidará um representante do CML para prestar esclarecimentos em audiência pública.   "Vejo com preocupação a repetição de episódios em que os militares adotam postura típica de bandidos, e não de autoridades", disse Molon, referindo-se ao episódio da Providência ocorrido em junho. O deputado adiantou que pretende questionar os militares sobre a formação que os soldados vêm recebendo nos quartéis.

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