Jovem relata tortura em UPP da Rocinha

Em depoimento ao MPE, filho de primo de Amarildo denunciou agressão cometida por policiais; promotora pede afastamento de comando da área

Marcelo Gomes,

22 de agosto de 2013 | 22h09

O Ministério Público Estadual (MPE) do Rio instaurou procedimento criminal para apurar denúncias de tortura supostamente cometida por agentes da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha contra moradores antes do sumiço de Amarildo Souza. O pedreiro desapareceu na noite do dia 14 de julho, após ser levado por policiais militares de sua casa até a sede da UPP.

Entre os investigados está o soldado Douglas Roberto Vital Machado, conhecido como Cara de Macaco, que conduziu Amarildo até o posto policial.

Em depoimento nesta quinta-feira, 22, à promotora Marisa Paiva, da 15.ª Promotoria de Investigação Penal, um menor de 17 anos, filho de um primo de Amarildo, contou ter sido agredido e torturado por Vital e outros policiais da UPP em três ocasiões. Seu pai também prestou depoimento ao MPE.

O episódio mais grave teria acontecido em abril, quando o adolescente foi abordado por Vital e mais dois PMs num beco. "Eles me deram chineladas no peito e na cara. Vital colocou um saco plástico na minha cabeça e gritava perguntando onde estavam o (traficante) Catatau e as armas. Depois eles me molharam e deram choques."

Outra sessão de tortura teria ocorrido na véspera do sumiço de Amarildo – durante a Operação Paz Armada, que prendeu 33 pessoas suspeitas de envolvimento com o tráfico.

O adolescente disse que Vital e policiais identificados como Nunes, Avelar, Peixoto e Lobinho queriam levá-lo à UPP para averiguação. "Eles deram uma desculpa que o Djalma (traficante da Rocinha) queria me matar porque achava que eu fosse X9 (informante da polícia), e eles (policiais) tinham de me proteger. Na UPP, me levaram até o banheiro, colocaram meu rosto na privada e deram descarga", disse o adolescente.

 

Apuração. Marisa disse que vai ouvir todas as pessoas citadas nos depoimentos do rapaz e de seu pai. "São denúncias sérias. Há desde crimes leves, como apreender adolescente sem flagrante ou mandado judicial, até graves, como tortura." O jovem e seu pai pediram para serem ouvidos pelo MPE por se sentirem ameaçados.

A promotora defendeu o afastamento do comandante da UPP, major Edson Santos, até a conclusão das investigações. Os depoimentos foram acompanhados pelo procurador Márcio Mothé, coordenador de Direitos Humanos do MPE.

 

Desconhecimento. A Coordenadoria de Polícia Pacificadora informou desconhecer as denúncias feitas pelo adolescente, que nunca haviam sido apresentadas à Polícia Militar antes. O órgão orienta quem tiver acusações contra PMs a apresentá-las à Ouvidoria da corporação.

Segundo a Coordenadoria, Vital está afastado das funções desde o dia 17 de julho, porque é investigado no episódio do desaparecimento de Amarildo.

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