Jovens da Febem vão participar de concurso musical

O jovem Kenio Cantidio dos Santos Silva não quer mais falar sobre o passado. "Quero fazer o presente e olhar para o futuro", diz. Nas lembranças que ficaram para trás, estão dez meses de internação na Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem). Desinternado em novembro, Silva voltou para a instituição um mês depois.Desta vez, não como interno, mas como professor. Às segundas e quartas-feiras, ele dá aulas de violão para jovens da unidade da Raposo Tavares e prepara um grupo para participar da 2ª Edição do Canta Febem.O concurso faz parte do projeto Arte Febem, que visa a resgatar a auto-estima dos jovens, desenvolver neles a capacidade de expressão e ajudá-los a entender sua realidade - tudo isso por meio da arte. Outros 15 ex-internos participam do projeto."Quando um menino ingressa na Febem, se sente o último do mundo", diz a coordenadora-geral do projeto, Rosemary Santos. "Nosso objetivo é resgatar sua auto-estima e dar a eles esperança."Silva é um ex-aluno do curso de violão."É fácil para mim entendê-los e ajudá-los a dar a volta por cima como eu fiz", diz ele, que ganha R$ 11,00 por hora de aula e, no dia, 22 passará por um teste para ingressar na Universidade Tom Jobim. "Quero ser um músico profissional", diz.O grande benefício da arte-educação, garantem os especialistas no assunto, é dar a jovens como Silva uma expectativa de vida. "Nas aulas, eles são estimulados a falar de seus problemas, da família, dos delitos", diz José Paulo, conhecido como P.MC, professor de hip-hop. "Por meio da arte consigo acalmá-los até quando percebo no ar uma ameaça de rebelião."Sob sua tutela, um grupo de adolescentes da unidade 15, do Tatuapé, participará do concurso com um rap cheio de atitude: "...Inferno humano/ se você passasse o veneno que nós passamos aqui/ certamente pararia para refletir/... batendo de frente com o sistema por um mundo melhor/ nosso sonho é um só/ maluco, chega de B.O....", diz a letra. O tema do concurso é "Por um mundo melhor".As aulas, realizadas duas vezes por semana por uma hora e meia, não são para todos, mas a Febem garante que atingem a maioria - pelo menos 4 mil dos 5.500 internados no Estado, em 347 oficinas. "Depois que aprendi a fazer música, fiquei mais confiante. As pessoas acreditam em mim, que posso fazer algo de bom, isso mudou meu jeito de pensar", diz C.B., de 18 anos, que concorre com uma música pop ao lado de outros cinco colegas. Quem comanda o grupo é um monitor voluntário."Ele ensaia com a gente por duas, três horas. Devemos tudo a ele", diz R.F.D, de 18 anos, fã de Laura Pauzzini. "Também nos deixa ouvir música no pátio. Fazemos votação porque uns gostam de sertanejo, outros de samba, pagode, rap. Não dá briga porque aprendemos a gostar de qualquer música.""No início, encontrei resistência dos monitores, mas, aos poucos, vamos quebrando esse estigma de sistema prisional da Febem", explica Rosemary.A segunda edição do Canta Febem tem 152 músicas inscritas, entre hip-hop, reggae, samba, rock e forró. Serão escolhidas 30 finalistas, que passarão, ainda, por três eliminatórias, em fevereiro, no Tatuapé.A final será em abril, no Memorial da América Latina. Uma das dificuldades é a falta de instrumentos. Doações podem ser feitas pelos tels. 6692-5087 e 6692-9939 ou pelo e-mail febemarte@febem.sp.gov.br.

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