Jovens da Rocinha vão tocar na Alemanha

Escola de música da favela completou 15 anos e agora integrantes do grupo Chorando à Toa vão se apresentar em 27 cidades europeias

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

23 Julho 2009 | 00h00

Paulo Vitor (violão), Carlos (cavaquinho e voz), Carla (flauta transversa), Diego (pandeiro) e Renato (bandolim e voz) embarcam para a Alemanha em setembro. Estão ansiosos. É a primeira vez que os jovens músicos, moradores da Rocinha, saem do Brasil, e vão se apresentar em 27 cidades. Integrantes do grupo Chorando à Toa, eles vêm de famílias pobres e passaram os últimos anos aprendendo a tocar instrumentos na escola de música da favela. Hoje são músicos profissionais, mas continuam fazendo aulas no projeto, que no mês passado completou 15 anos. Carla, flautista, está lá desde os 10 anos. Tem 24 e já passou, graças ao que aprendeu nas aulas, pelas orquestras do Projeto Villa-Lobinhos (recentemente objeto do documentário Contratempo, dirigido por Malu Mader) e da Pro-Arte. Foi cooptada por acaso: fazia curso de teatro e uma colega comentou que estava tendo lições de flauta. "Foi só assistir uma vez que troquei o teatro pela música", lembra Carla, estudante do segundo período de Pedagogia. Ela quer ser professora de música. Já é, como os companheiros de grupo, monitora. A mãe, doméstica, é só orgulho. "Ela contou para todo mundo que conhece sobre a viagem!" A Escola de Música da Rocinha (www.emrocinha.org.br) surgiu num espaço emprestado por uma igreja, com apenas 14 alunos (o número chegou a 450, 11 anos depois). O fundador foi o professor de música alemão Hans Ulrich Koch. Ele morava no Rio e lecionava para alunos ricos da zona sul. Impressionado com as diferenças sociais ao redor, resolveu dar chance também a quem não podia pagar - caso de Paulo Vitor, de mãe doméstica e padrasto vigia; de Carlos, que antes de tocar era balconista de padaria; e de seus pares. Tudo o que esses jovens aprenderam sobre música foi na escola. Sem ela, os caminhos percorridos seriam diferentes. "Nunca poderia pagar aula de violão; é um luxo", diz Paulo Vitor. "Eu achava que choro era música de velho, só ouvia pagode", recorda-se Diego. Koch voltou para a Alemanha quatro anos depois de instalar o projeto, mas continua acompanhando tudo de longe. Em 2003, alinhavou uma turnê de 25 shows para uma das bandas formadas entre os alunos, que tocava ritmos bem brasileiros, como frevo, baião e bossa nova, e gravou dois CDs, um lançado no Brasil, com repertório e participação de João Bosco, e outro na Alemanha. Agora, fez o mesmo pelo Chorando à Toa, que interpreta choros clássicos, de Joaquim Callado a Jacob do Bandolim, e também composições próprias. O sonho do primeiro CD deve virar realidade em breve. "Eu fico muito orgulhoso. Eles começaram do nada e atingiram um grau de profissionalismo grande. É uma vitória", celebra o alemão, que, por outro lado, se ressente do fato de não ter conseguido manter um patrocínio continuado para o projeto. Nos últimos dois anos, a escola contou com apoio do Criança Esperança. Em outros momentos, teve ajuda de patrocinadores alemães, da Petrobrás e da Tim. A prefeitura cede para as aulas um andar no prédio municipal que fica na frente da Rocinha. Mas é difícil continuar quando todos têm de trabalhar de graça - os salários de monitores, professores e funcionários administrativos não são pagos desde maio. "Sem dinheiro, o projeto acaba, é como oxigênio. As pessoas não vão conseguir sustentar esse voluntariado por tanto tempo", explica Gilberto Figueiredo, coordenador da escola.

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