Jovens de classe média espancam índio até a morte

Dois dos criminosos, que confessaram crime em MG, eram menores; esbarrão em festa provocou ataque

Eduardo Kattah, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2018 | 00h00

Um índio da aldeia xacriabá foi espancado até a morte por três jovens de classe média, entre eles dois menores de idade, na madrugada de anteontem, na cidade de Miravânia, no norte de Minas. Segundo informações da Polícia Civil, Avelino Nunes Macedo, de 25 anos, foi seguido depois de sair de uma festa realizada em um ginásio. As agressões foram motivadas por um simples ''''esbarrão'''' ocorrido durante uma festa. A polícia comparou o caso com a morte do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, há dez anos (veja ao lado). Responsáveis por organizações indigenistas da região temem que o clima na aldeia fique ''''tenso'''', após o crime. Os agressores confessaram o ataque, mas alegaram que não tinham a intenção de matar a vítima. Disseram que queriam apenas dar um ''''susto'''' no índio e ''''deixá-lo nu''''. Eles admitiram que haviam feito uso de bebidas alcoólicas. O entregador Edson Gonçalves, de 18 anos, foi preso em flagrante e se encontra à disposição da Justiça. Os dois menores foram encaminhados para o Ministério Público e tiveram a apreensão provisória solicitada. Um quarto jovem foi inocentado pelos colegas e liberado pela polícia. De acordo com o delegado do município de Manga, Airton Alves Almeida, os três foram autuados por homicídio qualificado, agravado por motivo fútil. ''''O índio deu um esbarrão natural em um dos menores. Então, na saída, resolveram atacar. Não tem explicação, parece o caso do índio Galdino.'''' O xacriabá tentou reagir, mas foi derrubado e agredido a pauladas, socos e pontapés. Almeida ainda não descarta ''''preconceito étnico'''' por parte do trio. A vítima não portava nenhuma faca ou objeto que pudesse ameaçar os agressores. Manoel Rocha, administrador substituto da Executiva Regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Governador Valadares (MG), tratou o assassinato como uma ''''molecagem'''' e um ''''caso isolado''''. Segundo ele, a procuradoria do órgão irá agora ''''tomar as providências cabíveis''''. O coordenador da Regional Leste (Minas, Espírito Santo e sul da Bahia) do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Wilson Mário Santana, teme que o caso aumente a violência na região. ''''A comunidade é grande e a situação pode ficar tensa.'''' Segundo o Cimi, cerca de 8 mil xacriabás vivem no norte do Estado, numa área estimada de 54 mil hectares. Com base em uma documentação de doação datada da primeira metade do século 18, eles reivindicam a ampliação do território, o que causa atritos com fazendeiros da região. No fim dos anos 80, três líderes foram assassinados durante o mais recente conflito fundiário. De acordo com Nilton Seixas, responsável pelo Cimi em São João das Missões, o assassinato ocorreu em uma área reivindicada. ''''Acho que é preciso investigar melhor essa situação. O episódio nos deu uma preocupação muito grande. Um crime que aparenta ser banal, sem nenhuma razão, ocorreu em meio a um povo que passa por um processo de muita ameaça e vive em um terço do território legítimo''''.

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