Jovens de Vigário Geral podem ter sido enterrados em cômodo

Quarenta e um dias após o seqüestro de oito jovens da favela de Vigário Geral, na zona norte do Rio, a polícia chegou a uma casa onde seus corpos podem ter sido enterrados. Os indícios são fortes: no imóvel, em ruínas, havia um quarto com o chão recém-reformado. Além disso, foram encontrados uma calça e um casaco que duas das vítimas usavam no dia em que desapareceram, segundo as mães. No entanto, os policiais não fizeram escavações no cômodo.A equipe da Delegacia de Homicídios, que estava na favela para realizar a reconstituição do seqüestro, abriu um pequeno buraco no chão de outra parte da casa - para indignação das mães de alguns rapazes desaparecidos. Elas acompanhavam a ação e disseram aos policiais que tinham informações de que havia corpos enterrados na casa. A construção fica perto do Posto de Policiamento Comunitário que divide Vigário Geral e Parada de Lucas, de onde os seqüestradores saíram. O delegado Carlos Henrique Machado justificou: "Fizemos a escavação que foi possível fazer. Não podemos escavar a favela inteira".Somente hoje a polícia começou a periciar outro imóvel, onde os jovens teriam sido torturados e mortos. O local foi apontado por um recruta da Marinha que foi levado inicialmente pelos bandidos, e depois liberado. Ele participou da reconstituição, que começou às 15h30. Protegido por um colete à prova de balas, o recruta circulou por Vigário Geral e Parada de Lucas com uma touca ninja e um sobretudo com capuz, por medida de segurança. Para o delegado Carlos Henrique Machado, o trabalho de hoje teve resultado positivo. "Embora não tenhamos os corpos, estamos buscando provas técnicas de que houve assassinato por outros meios", disse. "Vamos fazer testes com o (equipamento) luminol, à noite, na casa onde teria ocorrido a tortura, em busca de vestígios humanos que possam passar por teste de DNA que possa embasar uma denúncia do Ministério Público".Familiares das vítimas não ficaram satisfeitos com o que viram. Algumas mães dos rapazes tinham a expectativa de que o rio Meriti, onde os corpos teriam sido jogados, fosse dragado. Mas técnicos da Superintendência Estadual de Rios e Lagoas (Serla) informaram que isto era inviável, porque a máquina não tem como se aproximar do rio. Bombeiros também não puderam entrar no rio de bote porque a superfície é tomada por plantas aquáticas. Durante o trabalho da polícia na favela, quatro pessoas foram presas: a mãe e a irmã do traficante Nego, de Parada de Lucas, e dois traficantes que ameaçavam testemunhas.O advogado João Tancredo, que a partir dessa semana passa a defender uma das mães de Vigário, sofreu um seqüestro relâmpago na sexta-feira passada. Os criminosos nada levaram e o mandaram "tomar cuidado". "Trabalho em vários casos polêmicos e não sei quem quis me assustar. Mas pela minha militância, não há dúvida de que foi um aviso, e que os próximos passos serão mais violentos", afirmou o advogado.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.