Jovens do tráfico ganham ''''conselhos''''

Policial ensina garotos de classe média a manter cabeça baixa na cela; para famílias, alguns nem gostavam de festas

Clarissa Thomé, RIO, O Estadao de S.Paulo

09 de novembro de 2007 | 00h00

Os sete rapazes presos por tráfico em áreas nobres do Rio passaram a tarde sentados no chão de um cubículo da Delegacia de Combate às Drogas, no Centro. Quando estavam prestes a ser transferidos para a carceragem da Polícia de Capturas (Polinter), que ficou conhecida pela superlotação e agressividade entre os presos, os jovens "sentiram" a realidade. Chamaram um policial e perguntaram como deveriam se comportar na cadeia. "Lá dentro é cabeça baixa, ?sim, senhor?, e nada de marra", foi o que ouviram.Ao contrário dos rapazes, Jéssica de Albuquerque e Corrêa, de 18 anos, permaneceu sentada ao lado do pai, que chorava. Também ouviu orientações. Deveria retirar brincos e cordões, evitar decotes e roupas curtas, vestir uma calça confortável. Ela foi levada para a Polinter de Mesquita, na Baixada Fluminense. A menina não acreditava que ficaria presa: achava que prestaria depoimento e seria liberada. "Ela só caiu em si agora à tarde, quando percebeu que é sério", comentou o tio, que a criou e também a acompanhava.Jéssica ficou órfã de mãe com 1 ano de idade, num acidente trágico. Arquiteta, a mãe dela foi visitar uma obra e levou os filhos. Estacionou numa ladeira e o veículo, com as crianças dentro, começou a descer. Ela tentou segurá-lo. Morreu atropelada. A menina e o irmão mais velho foram criados pelo tio."Nunca deu trabalho. É secretária de um escritório de contabilidade no Centro e faz o curso pré-vestibular. Foi lá que conheceu o Bruno (Pompeu D?Urso, apontado pela polícia como o chefe da quadrilha). Ele mudou a cabeça dela, que chegava de madrugada, ia a festas", disse o tio, que não foi identificado. No momento da prisão, a empregada da casa de Bruno chorava mais que a mãe, que é separada. "Ela foi babá dele. Enquanto a mãe parecia decepcionada, a empregada estava aos prantos e pediu demissão: disse que tinha dignidade e não ia trabalhar na casa de traficante", relatou o delegado Fábio Cardoso.Numa cena que está ficando cada vez mais comum nas delegacias fluminenses, mulheres bem vestidas circulavam pelos corredores com sacolas de supermercado. Levavam biscoitos, frutas, roupas e cigarros para os filhos. E eram avisadas de que nada daquilo poderia entrar na Polinter. Apenas o pai do taxista Renato da Silva Magdalena, o ferroviário Augusto Jorge, de 53 anos, destoava, ao levar sanduíches para o filho. "Não acredito no envolvimento dele. É filho único e nunca deu trabalho, nunca foi de ir a festas." AS GRAVAÇÕESA polícia fluminense interceptou mais de 16 mil ligações durante os cinco meses de investigação da Operação Octógono. "São os mesmos diálogos travados por traficantes do morro. Você ouve o diálogo de um deles, que mora numa rua chique na Lagoa, e acha que está ouvindo o gerente de uma boca-de-fumo de um morro qualquer. As pessoas sentem pena, mas são tão bandidos quanto os do morro", contou o delegado Fábio Cardoso, que participou da operação. No trecho abaixo, há um diálogo entre um comprador e Bruno Pompeu D? Urso, de 18 anos. Também integravam a quadrilha, segundo a polícia, o universitário Rodrigo de Luca, de 19 anos; Jessica de Albuquerque e Corrêa, de 18 (namorada de Bruno); Fábio Luiz Cardoso da Silva, de 26; Mycon Igor Scoralick, de 20; e Rafael Luiz de Vasconcelos Passos, de 19. Thiago Castilho Gama, de 24 anos, morador de Copacabana, já estava preso por roubo. Renato da Silva Magdalena, atuaria como o taxista dos criminosos. Usuário: "Eu tava querendo pegar um haxi (haxixe), tu não tem não"? Bruno: Ter eu tenho, filho, mas só quantidade grande. Unidade eu não tenho, não. Tá ligado (...) Usuário: Tô ligado, mas quanto é essa unidade grande Bruno: Aí é 25 g (grama). Tá ligado. Já tá cortado já. 60 contos (reais) No trecho seguinte, o grupo discute como vai transportar a droga Bruno: Pô, irmão, já tô no pé do Santo Amaro (favela do Rio). Pedro: E aí? Bruno: O amigo foi lá pegar umas paradas pra mim, entendeu? Pedro: Então, tu vai precisar do Renato ou não vai? Bruno: Então, eu ia precisar mano, porque aqui é foda, parceiro Pedro: Então, fala com ele aqui (passa o telefone para o taxista Renato) Renato: Qual é mano? Bruno: Qual é Renato, tem como tu vim me dá um bonde aqui mano? Vou sair daqui pesadão Renato: Tá maluco, rapá Bruno: Tem não? Não vou sair muito pesado não, de leve. De leve, de leve, vai por mim Renato: É contigo mesmo, rapá Bruno: Tô aqui perto da 9ª DP (Delegacia de Polícia) irmão, naquela ruaEm outro ponto o ecstasy é negociado. Na gíria adotada, os comprimidos viram "doces" Usuário: E aí, tá em casa? Bruno: Tô Usuário: Então, tem três de doce, não? Bruno: Pô, filho, tem Usuário: Tem como vender, não? Bruno: Pô irmão, tem, mas por favor manera a voz aí fim

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