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Jovens mais estressados?

Pesquisas podem ajudar a entender oscilações de humor comuns nessa fase da vida

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

31 Julho 2016 | 07h05

 

Novo estudo divulgado no Canadá revela um perfil do adolescente de lá muito parecido com o que se nota por aqui: estressado e mais dependente de tecnologia, o que pode aumentar o risco de dificuldades emocionais e problemas de saúde.

O trabalho mostra que um em cada três alunos de 12 a 17 anos enfrenta estresse psicológico moderado ou grave. O estudo do Centro de Dependência e Saúde Mental de Ontário avaliou mais de 10 mil estudantes. Em dois anos, o número de jovens mais estressados saltou de 24% para 34%.

Os sinais mais comuns do estresse psicológico foram sintomas ansiosos e depressivos (como sentir-se sem esperança, irritado, tenso, com dificuldade de manter a atenção, etc.). Os dados mostram que o problema é pior entre as garotas (46% delas e 23% deles mostraram altos níveis de estresse).

A situação tende a se agravar entre os 16 e os 17 anos, quando o jovem passa a enfrentar mais pressões da “vida adulta”, como namoro, vida sexual, padrões mais rígidos de imagem corporal, maior cobrança na escola, seleção para faculdade e escolha de carreira profissional, entre outros.

Em relação ao uso de tecnologia, o trabalho mostra que dois terços dos jovens passam pelo menos três horas na frente de algum tipo de tela – computador, tablet, celular ou TV –, 86% usam redes sociais diariamente e 16% exageram, ficando 5 horas ou mais, por dia, conectados.

Estudos anteriores já mostraram que, quanto mais intenso o uso das redes sociais, maiores os riscos de fatores potencialmente geradores de ansiedade, como exposição exagerada, ciberbullying e problemas de autoestima, desencadeados por uma percepção irreal e distorcida do que é publicado pelos pares. Parte dessa sensação de inadequação do jovem pode ter relação com o exagero da mediação da tecnologia em suas interações sociais.

Um cérebro que muda. Outra pesquisa divulgada na última semana identificou que as áreas do cérebro que mais sofrem mudanças na adolescência são aquelas associadas a processos de pensamento complexo e tomadas de decisão. Já as áreas envolvidas com visão, audição e movimentos estão totalmente desenvolvidas nesta fase da vida.

Os pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, avaliaram com uso de ressonância magnética o cérebro de 300 jovens de 14 a 24 anos. Os resultados foram publicados na revista Proceedings of the National Academy of Science (PNAS) e divulgados pelo site da BBC News e pelo jornal Daily Mail. Essas mudanças nos centros de conexão dos neurônios, que integram os processos de avaliação e decisão, podem ajudar a entender as oscilações de comportamento e humor tão comuns nessa fase da vida.

Os pesquisadores também investigaram os genes responsáveis pelo desenvolvimento dessas áreas de processamento mais complexo e perceberam que eles são semelhantes aos envolvidos no desencadeamento de algumas doenças psiquiátricas, como a esquizofrenia. A descoberta pode ajudar a entender o peso que a genética tem no desencadeamento dos transtornos mentais, mais comuns no final da adolescência e começo da vida adulta.

Mas lógico que não é só a genética. Fatores ambientais, como famílias negligentes, o uso de alguns tipos de droga e o estresse psicológico gerado pelas experiências cotidianas podem aumentar esse risco.

Daí a importância de perceber que esse jovem que vive mais estressado pode estar sujeito a questões importantes para suas emoções. Sem interferir nesse processo, buscando um estilo de vida mais saudável, com uso mais moderado das tecnologias e redes sociais, corremos o risco de ter uma geração mais propensa a problemas de comportamento e transtornos psíquicos.

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