Jovens mortos em chacina eram do tráfico, diz delegado

O delegado Aldari Viana, que investiga o assassinato de sete jovens por traficantes do Morro do Adeus, ocorrida na quinta-feira, no Rio, disse que é "fantasiosa" a versão da família dos rapazes, segundo a qual eles foram seqüestrados a caminho de um jogo de futebol e mortos apenas por serem moradores da Vila do João, controlada por facção rival. De acordo com Viana, os rapazes participaram da invasão ao Morro do Adeus, permaneceram na favela, e foram assassinados três dias depois, quando os criminosos expulsos retomaram o controle do tráfico. "Eles estavam no morro. Foram pegos lá", afirmou o delegado.Viana disse que os sete jovens, cinco deles menores de idade, foram recrutados pelo traficante Cheiroso, remanescente da quadrilha de Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, morto numa rebelião em Bangu 1, em 2001. Ele já havia trabalhado com Marcelo Fanhoso, que está à frente do tráfico no Morro do Adeus.No domingo, 21, Cheiroso e outros 30 criminosos da Vila do João tomaram o tráfico do Adeus. O domínio do grupo, ligado à facção Amigos dos Amigos, durou pouco. Na quarta-feira, Fanhoso voltou ao morro. Na ação, Cheiroso e os sete jovens assasinados foram capturados. "Eles foram submetidos a cinco horas de tortura. Cheiroso conseguiu escapar e procurou as famílias das vítimas. Ao fim da sessão, um integrante do bando do Fanhoso esquartejou as vítimas. É a especialidade dele", afirmou o delegado, que já identificou esse criminoso e está a sua procura.Quando tentavam fugir dos homens de Fanhoso, os jovens se refugiaram no terreno de uma casa, uma área grande com saída para duas ruas. Essa família foi expulsa do Morro do Adeus, onde vivia há 30 anos, na sexta-feira. "Fanhoso cismou que essa família tentou ajudar os rapazes", explicou o delegado. A polícia tem feito operações no morro, desde quinta-feira, para prender o chefe do tráfico. "Quero pegá-lo vivo", afirmou Viana, que está há três semanas na delegacia.A versão apresentada pelo delegado contrasta com a imagem passada pela família dos jovens - a de que os garotos, sem antecedentes criminais, como a polícia mesmo atestou, eram trabalhadores ou estudantes e foram vítimas inocentes da guerra do tráfico. "As famílias têm o direito de preservar a memória do ente que morreu. Cabe a nós apurar o que é verdade", afirmou Viana. O Estado não conseguiu localizar ontem nenhum dos parentes dos rapazes assassinados.MocotóPara o delegado, a invasão fracassada ao Adeus pode ter custado ainda a vida do traficante Mocotó, que chefiava o tráfico na Vila do João, e teve o corpo carbonizado na madrugada de quinta-feira, pelos próprios comparsas. "Ele já estava em desacerto com o traficante Sassá (Edmilson Ferreira dos Santos, dono do tráfico na favela, que está preso). Foi o Mocotó que liberou os jovens para participarem do ataque no Adeus. Pode ter sido o ponto culminante para que a morte dele fosse decretada", afirmou. Segundo o delegado, a violência no Morro do Adeus recrudesceu nos últimos tempos. O Terceiro Comando Puro (TCP), facção de Fanhoso, havia sido expulsa pela milícia, força paramilitar, da qual fazem parte policiais e bombeiros, com atuação clandestina em algumas favelas das zonas norte e oeste. "A milícia não ficou muito tempo porque achou o morro fraco. Embora expulse o tráfico, eles cobram por segurança, gatonet (tv a cabo clandestina), distribuição de gás, mas o rendimento foi considerado baixo", explicou o delegado. Com a saída dos milicianos, o TCP voltou enfraquecido e sofreu o ataque da Vila do João, controlado pela facção Amigo dos Amigos (ADA).

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