Jovens vão zelar pela limpeza da Avenida Paulista

Se tudo der certo, em dois meses um bando de jovens uniformizados estará na Avenida Paulista cuidando da "limpeza fina" da área. A idéia da associação Paulista Viva e do Projeto Ampliar é que, por exemplo, ao ver alguém jogar um pedaço de papel no chão, o garoto o pegue e coloque na lixeira, com a observação: "Olha, o senhor (ou a senhora) deixou cair." Com isso, espera-se que a pessoa não repita o gesto. Também será retirado lixo de canteiros e cantinhos. "Queremos deixar a Paulista um brinco, uniformemente bonita", diz a superintendente da associação, Marli Lemos. O projeto de limpeza e conservação de jardins não vai substituir, mas manter, o que é obrigação da Prefeitura fazer. "A Avenida Paulista, símbolo e cartão-postal da cidade, deveria ser motivo de orgulho. Mas as pessoas chegam aqui e se deparam com uma montanha de lixo, buracos e mendigos nas calçadas." A Paulista Viva quer contratar brigadas de jovens, no período em que eles não estão na escola. Para que isso ocorra, faltam apenas "os finalmentes" do departamento jurídico da associação. Na semana passada, o presidente, Nelson Baeta, esteve na Promotoria da Infância e Juventude pedindo orientação. "Quero tirar esses jovens da rua e dar-lhes ocupação, mas não posso estimular o trabalho infantil." Por isso, o mais jovem do grupo deve ter 14 anos, para entrar como aprendiz. Do mesmo modo que no projeto "Engraxarte - o artista dos sapatos", que está mais adiantado. De início, 20 meninos e meninas vão engraxar os sapatos das pessoas na Avenida Paulista e, assim, aprender a "caminhar com os próprios pés". "Uma porta vai se abrir para mim", acredita Everton Antonio dos Santos, de 16 anos, que já está em treinamento. Até pouquíssimo tempo, na casa de Everton, na Liberdade, só a mãe dele, que é copeira, trabalhava. Agora os irmãos Edjane, de 21, e Ednaldo, de 18, começaram como vendedores. Edson, de 13, apenas estuda. No Projeto Ampliar, que funciona na Avenida Brigadeiro Luís Antonio, 2.344, 8.º andar, Everton fez curso de operador de telemarketing e de capacitação para emprego. Prepara-se agora para ser engraxate. "Vai ser o meu primeiro trabalho." As inscrições estão abertas. Os candidatos selecionados vão aprender a gerenciar o negócio, a cativar o cliente, ter uma boa apresentação e responsabilidade com horário. "Eles vão ser os protagonistas, nós ficaremos no suporte", explica a assistente social Adriana Rosa Florentino, coordenadora e supervisora dos cursos do Ampliar. O Projeto Ampliar existe há dez anos e é um braço do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis (Secovi). O primeiro núcleo foi na Favela Sete de Setembro, no Jardim São Bernardo, zona sul. Lá, com doações, foi construído um galpão onde são dados cursos de profissionalização para a faixa de 12 a 18 anos. Os adolescentes aprendem costura industrial, padaria e confeitaria, datilografia e serviços de auxiliar de escritório, serigrafia e capacitação para emprego. Quando terminam, recebem certificado do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). "Passam por lá 120 adolescentes por dia", conta a empresária Maria Helena Mauad, fundadora e presidente do projeto. "Já entregamos mais de 6 mil certificados." Em novembro do ano passado foi inaugurado o segundo núcleo, na antiga sede do Secovi, destinado a jovens que vivem nos cortiços da Bela Vista e região central, na mesma faixa de idade. Ali, as profissões são outras: telemarketing, informática, secretariado e capacitação para emprego. Antes de entrar no Ampliar, o estudante Villen Vicente de Paula Ananias de Jesus, de 15 anos, que mora na Bela Vista com a família, ficava "tipo sem fazer nada" várias horas por dia. O pai dele é faxineiro de um prédio e a mãe, dona de casa. Já estudou computação e digitação e está no telemarketing. "Agora, tipo vou ter muito mais chance", diz. O projeto da Paulista o anima. "Já devia estar rolando porque assim lá não teria tanta sujeira, tá ligado?" Comparando com a Cohab Adventista, perto do Capão Redondo, na zona sul, onde mora, Raquel dos Santos Isabel, de 15 anos, nem acha a Paulista tão suja. "Precisa ver: lá tem um córrego e outro dia jogaram a carcaça de um carro. Sofá, fogão, tudo isso é normal. Mas um Chevettinho!" O pai de Raquel, que é eletricista, foi fazer um serviço no prédio onde funciona o Ampliar e soube do projeto. Agora, em vez de ver televisão o dia todo (ela estuda à noite), Raquel faz telemarketing à tarde. Mas quer ser cabeleireira. Em breve, o Ampliar vai oferecer esse curso, que tem grande procura. Assim como secretariado, que Priscila Costa Matos, de 14, cursa, cheia de entusiasmo. Verônica Nathalia de Campos, da mesma idade, estuda de manhã e aproveita o resto do tempo para fazer cursos. No seu currículo tem capoeira, costura e computação. "Se tiver esse trabalho na Paulista, eu topo, se bem que outros lugares precisam mais de limpeza." Um deles é o Cambuci, onde mora Evandro Dias Soares, de 14. Para ele, trabalhar na Paulista vai ser moleza. "O povo que vai lá é educado, capaz de guardar um papel até achar uma lixeira, e tem mais consciência do que, por exemplo, quem vai à Praça da República. Eu adoro a Avenida Paulista!" Além dos ajustes de ordem legal para os dois projetos, o Ampliar busca patrocínio para uniformes e equipamento. "A idéia é que usem um carrinho de limpeza diferenciado", explica Maria Helena. A cadeira de engraxate, cujo protótipo ela diz ter ficado "uma gracinha", foi desenhada pelo arquiteto Gil Carvalho. Meninos e meninas vão trabalhar em duplas, em praças e outros locais que ainda estão sendo negociados com as empresas. "Queremos evitar que fiquem na rua", diz a empresária. "Eles estudam em um turno e, no outro, aprendem alguma coisa e ganham algum dinheiro, tudo dentro da lei." O salário ainda não está definido.

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