Juiz aposentado "mata" computador no Pará

Revoltado pela demora de um inquérito policial, o juiz aposentado e advogado Jahir Galvão, de 77 anos, ao receber a resposta de um escrivão de polícia de que seu problema estava no computador, tomou uma atitude inusitada: sacou o revólver e deu cinco tiros na máquina. "Pronto, matei o computador porque ele estava trabalhando para os bandidos", justificou, ao ser preso na delegacia de Marituba, município da região metropolitana de Belém. A tela do computador ficou em pedaços, mas os dados sobre o inquérito de Galvão e de outros interessados foram salvos. Hoje, depois de pagar fiança, o advogado foi solto pelo delegado Clóvis Oliveira. Ele vai responder em liberdade por dano contra o patrimônio do Estado, colocar em risco a vida de terceiros, por usar arma num ambiente onde havia outras pessoas e por porte ilegal de arma. O chefe de Oliveira, delegado Bertolino Neto, disse que pretende submeter Galvão a exame de pólvora combusta e também de sanidade mental. "Ele deve estar com problemas por ter tomado uma atitude dessas", comentou Neto, para quem em 30 anos como policial nunca tinha autuado alguém em flagrante por algo parecido. De acordo com o escrivão Otacílio Santos, da delegacia de Marituba, ontem de manhã Galvão chegou mais uma vez ao local cobrando celeridade no inquérito que apura a invasão de um condomínio de evangélicos, para quem ele trabalha. O advogado vinha nos últimos tempos ouvindo da polícia uma desculpa típica da burocracia no serviço público brasileiro: o caso estava no computador. "Saí de casa com o revólver dentro de uma sacola, no centro de Belém, peguei um ônibus e viajei mais de 30 quilômetros até Marituba para acabar com aquela ?sem-vergonhice? do computador. Eu já estava de saco cheio e minha intenção era encher de balas aquela máquina safada", contou o advogado. Ao chegar na delegacia, Galvão ficou ainda mais indignado ao saber que um dos acusados de invadir o condomínio dos evangélicos havia sido transformado em testemunha no inquérito. Era a gota d´ água que faltava para a explosão de fúria do advogado. Enquanto o escrivão saía por um instante da sala para informar o delegado Clóvis Oliveira sobre a presença de Galvão na delegacia, o advogado expulsou da sala duas pessoas que lá haviam comparecido, fechou a porta, sacou o revólver e passou a disparar contra o computador. ?Quando eu ouvi aqueles tiros, pensei logo e falei para o delegado: ?meu Deus, o doutor Jahir se matou aqui dentro?". Os dois correram, empurraram a porta e se depararam com a cena patética. Com o revólver na mão e um sorriso nos lábios, Galvão contemplava o terminal estilhaçado do computador. Os policiais tomaram a arma dele e lhe deram voz de prisão. Mais calmo depois do episódio, o advogado disse não se arrepender de ter "matado o computador". Ele condenou a burocracia da polícia em concluir um inquérito que se arrasta por dez anos. E comemorou: "Lavei a alma do povo brasileiro".

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