Juiz proíbe mãe de levar os filhos ao santo daime

O juiz Pedro Luís Alves de Carvalho, da 5ª Vara Cível de Sorocaba, proibiu a professora Cristiane das Neves de continuar levando seus dois filhos menores, de 5 e 6 anos, a reuniões onde se consome o chá conhecido como santo daime. A liminar foi dada ontem, em medida cautelar impetrada pelo pai das crianças, Wagner Garcia da Fonseca Rosa. Ele alega que os filhos, ao serem batizados na seita, foram obrigados a ingerir uma bebida contendo ?substâncias alucinógenas? que fez com que vomitassem e perdessem o apetite. Segundo o pai, as crianças permanecem até a madrugada no local. O juiz entendeu que a presença nos cultos pode ser nociva às crianças em razão da pouca idade. Hoje, foi expedido mandado de intimação.Wagner está separado de Cristiane, que tem a guarda dos filhos. Ele alega que, na passagem de ano, percebeu algo diferente no comportamento das crianças e ficou sabendo que a mãe tinha levado as duas aos rituais do daime, que acontecem em uma chácara, no município de Tapiraí. No início de janeiro, o pai e uma testemunha foram ao culto e tomaram o chá. Wagner Rosa conta que entrou em ?transe?, teve confusão mental e forte indisposição estomacal. A advogada Cleidinéia Gonzales, que requereu a liminar, disse que os participantes, após ingerir a bebida, dançam até o amanhecer. "Os líderes alegam que aquilo seria uma elevação espiritual, colocando o usuário em contato com o deus da natureza." A participação de crianças nos rituais está sendo investigada pelo Conselho Tutelar de Sorocaba. Cristiane disse que leva os filhos por não ter com quem deixá-los, mas negou que os menores tivessem tomado o chá. Um dos líderes do movimento, o empresário Fernando Dini, disse que as crianças normalmente não participam dos trabalhos. Ele comanda um dos grupos mais conhecidos da cidade, e assegura que o daime não é doutrinário. "Eu não faço reuniões longas, pois cada pessoa tem sua característica."A disseminação do daime no Brasil é atribuída ao maranhense Raimundo Irineu Serra, falecido em 1971. Os participantes tomam um chá à base da planta ayahuasca, também conhecida como chacrona ou rainha (Psycotria viridis). O Conselho Federal de Entorpecentes (Confen) liberou o uso do chá em 1986, por entender que não se trata de droga. Em Sorocaba, há pelo menos cinco grupos ligados à seita. No Brasil, são mais de 5 mil agrupamentos.

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