Juiz vai a julgamento, acusado de matar a mulher

Pela primeira vez na história do Estado de São Paulo, um juiz vai sentar no banco dos réus, acusado de assassinato. Marco Antônio Tavares, da 1ª Vara de Jacareí, no interior do Estado de São Paulo, será julgado nesta sexta-feira, a partir das 9 horas, pelo Órgão Especial do Tribunal de Justiça (TJ) - composto pelos 25 desembargadores mais antigos - sob a suspeita de ter matado a mulher, Marlene Aparecida de Moraes Tavares, em 22 de agosto de 1997.Tavares é o segundo juiz acusado de assassinato no País. O primeiro foi em 1873, o desembargador Pontes Visgueiro, do Tribunal de Relação do Maranhão. Aos 62 anos de idade e transtornado por uma paixão não correspondida, assassinou a prostituta Maria da Conceição, de 15 anos, em São Luís. Auxiliado por um cúmplice, esquartejou o cadáver e colocou-o num baú de madeira.O caso de Tavares se arrastou por mais de cinco anos. Durante esse tempo, ele permaneceu afastado do cargo recebendo seus vencimentos. Por ser juiz, tem foro privilegiado e não pode ser julgado pelo Tribunal do Júri - responsável no caso de crimes contra a vida quando há intenção de matar.A tese da defesa é corajosa: a de que o corpo encontrado não é o de Marlene e de que ela estaria viva em algum lugar. Em avançado estado de decomposição, o cadáver foi reconhecido pelas roupas, jóias e por uma prótese e um sinal dentários. O assassino raspou as pontas dos dedos do corpo para apagar as digitais - o juiz foi visto comprando luvas no dia do crime.Um exame de DNA foi feito, mas foi impossível extrair material para exame. No ano passado, peritos do Núcleo de Odontologia do IML atestaram que Marlene está morta, pelo exame da arcada.Durante o processo, o Ministério Público Estadual (MPE) procurou mostrar os supostos rastros deixados e os deslizes cometidos pelo réu.Entre eles, está um recibo de venda de uma lancha em que Tavares, apesar de sustentar que a mulher estava viva, afirma ser viúvo. A defesa tentou adiar o julgamento por meio de um habeas-corpus no Superior Tribunal de Justiça (STJ), mas não conseguiu. "É necessária a realização de outras provas de interesse da defesa", diz a criminalista Tânia Lis Tizzoni Nogueira.O motivo do assassinato estaria na relação do casal, que estava se separando após 8 anos de união. Tavares chegou a pedir à Justiça que afastasse Marlene de casa. Mas ele é que foi obrigado a deixar a casa e os filhos Hector, hoje com 10 anos, e Artur, com 8 - que vivem com ele.Para a acusação, ele queria se livrar de Marlene para ficar com a casa, os filhos e a amante, a advogada Jane Maria Franco Cardoso. "Ele não teve e não tem nenhuma relação com a doutora Jane. Acreditar que o doutor Tavares mataria a mulher por causa de uma crise conjugal é absurdo", rebate Tânia. A lista telefônica de Jacareí revela que o endereço de Jane é o mesmo de Tavares. "Ele apenas usou a linha no endereço."Entre os rastros deixados por Tavares está a ida com Marlene ao Motel Class, na Via Dutra, em São José dos Campos, na véspera do crime - dia 21 de agosto de 1997. Ambos ocuparam a suíte 209. Chegaram às 19h39, comeram filezinhos, beberam água mineral e vinho e foram embora às 21h53. O juiz nega ter ido, mas a conta foi paga por ele, em cheque. "E se tivesse ido? Qual o problema?", questiona Tânia.Marlene chegou a contar a uma amiga que Tavares pediu segredo sobre o encontro e quando estavam no quarto ele ouviu alguém bater na porta. Com medo de assalto, quis ir embora. Na volta, ele teria parado na Rodovia SP-123, que dá acesso a Campos de Jordão. Disse que ia urinar. Marlene, assustada, telefonou para outra amiga, Rosa Maria de Mattos - que morreu no ano seguinte -, e fez um alerta: "Se caso acontecer alguma coisa comigo ou eu desaparecer, avise minha família e venham me procurar neste local". Tânia contesta. "A quebra do sigilo telefônico revela que essa ligação não existiu."Foi nesse local indicado por Marlene na véspera do crime que o corpo foi encontrado nove dias depois, com dois tiros (um na parte de trás do joelho esquerdo e outro no peito). O MPE suspeita de que o juiz tenha visto a mulher ao telefone e, por isso, não fez nada no dia 21. Deixou para o dia seguinte, quando também foi visto saindo com Marlene.Entre as provas sustentadas pela acusação está uma frase dita por Hector, então com 5 anos, a uma vizinha: "O papai falou que a mamãe está no céu". A revelação foi feita antes do encontro do corpo. "Essa declaração é altamente incriminadora", diz a acusação. "Ele nunca disse isso ao filho", sustenta a defesa.

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