Juíza não se conforma com morte de irmãos

Magistrada encaminhou meninos de volta à casa do pai, que os matou há cerca de um mês

Naiana Oscar, O Estadao de S.Paulo

07 Outubro 2008 | 00h00

Isabel recebeu a notícia por telefone. Estava de férias naquele 6 de setembro, quando soube que os meninos que estiveram em seu gabinete um mês antes haviam sido assassinados, queimados e esquartejados pelo pai e pela madrasta. Sozinha, no seu apartamento no Ipiranga, a juíza chorou. Passado um mês do assassinato dos irmãos João Victor, de 13 anos, e Igor Giovanni dos Santos Ribeiro, de 12, Isabel ainda se recusa a dar entrevistas. Não quer se expor e está "chateada" com o que saiu na imprensa sobre o crime. Acostumada a julgar, teve de enfrentar as críticas sobre sua atuação no caso. Agora, ela quer processar os especialistas que a criticaram. Em abril do ano passado, com base em denúncias de que os irmãos sofriam maus-tratos, Isabel determinou que os dois fossem para um abrigo. Em maio tentou tirá-los de lá, mas revogou a decisão porque os irmãos pediram para ficar. Em janeiro, a juíza determinou a volta para casa - seis meses antes, o Ministério Público denunciara pai e madrasta por tortura. Os meninos foram mortos no dia 5 de setembro, dois dias após terem fugido de casa. Isabel Cardoso da Cunha Lopes Enei é juíza da Vara da Criança e Juventude de Ribeirão Pires desde 2001. Aos 36 anos, é solteira e não tem filhos, mas tem paixão pelo sobrinho e afilhado Felipe, de 1 ano. Escolheu aos 17 o curso de Direito. Sua mãe é professora de Direito Penal no Rio. O pai e o irmão são advogados. Todos cursaram a São Francisco, da USP. Na faculdade, Isabel era dedicada, boa aluna, mas não "bitolada". Chegou a compor a diretoria do centro acadêmico XI de Agosto como responsável pela área cultural. Um amigo lembra ainda que ela "não tinha frescura". Embora não goste de falar de suas posições políticas, é definida pelos colegas de faculdade como uma pessoa com tendências de esquerda, entusiasta do poder popular. O pai, Virgílio Egydio, é declaradamente comunista. Ele e a mulher foram advogados de presos políticos durante o regime militar. Virgílio ostenta ainda no currículo a autoria da ação popular contra o ex-prefeito Paulo Maluf, por ter doado Fuscas aos jogadores da seleção brasileira que venceram a Copa do Mundo de 70. Depois de se formar, em 1993, Isabel advogou por dois anos antes de ingressar na magistratura. Passou, discretamente, como juíza substituta por comarcas do litoral de São Paulo, como São Sebastião e Caraguatatuba. Em Ribeirão Pires, mesmo quem não sabe que ela é loira de cabelos levemente ondulados, olhos azuis e pele bem clara já ouviu falar da juíza. E ninguém ousa tecer comentários negativos sobre ela. "É excelente, maravilhosa e não tenho mais nada a dizer", resumiam os moradores e funcionários, na delegacia, no Fórum, na Câmara de Vereadores... Alguns, quando descobriam que o assunto era a juíza, fechavam a cara. Outros recebiam as questões com uma risada e um "só se eu for louco de responder". Na cidadezinha, Isabel é conhecida como uma pessoa "humana" e, até certo ponto, acessível. Os conselheiros tutelares, admiradores e defensores fiéis da juíza, relatam que ela abre as portas de seu gabinete sem cerimônias. Mas, sob a condição de não serem identificados, advogados dizem que há muitos processos parados na mesa dela. E dizem que é comum as audiências atrasarem algumas horas. Em Ribeirão Pires, Isabel acumula as Varas da Infância e Juventude, Criminal, Cível e da Família. A primeira é prioridade. Quem a conhece diz que sua relação na morte de João e Igor é uma "ironia do destino". Quando chegou a Ribeirão, Isabel iniciou uma campanha de Natal para arrecadar presentes para crianças carentes. Criou também um grupo de apoio à adoção. Não gosta de abrigos. Diz que não resolvem os problemas de quem lá vive. Num artigo publicado em 2004, escreveu: "Tal criança está abrigada porque o Estado falhou na estruturação de programas de auxílio capazes de prevenir o abandono. Mas se o Estado falhou antes, deveria falhar menos na tarefa de reintegração familiar. E uma vez corrigida a situação de extrema miséria, a criança deveria voltar ao convívio dos próprios familiares." No caso de João Victor e Igor descobriu-se, por fim, que esse não era o melhor caminho. Os corpos deles ainda não foram enterrados. A polícia culpa a complexidade dos exames para a conclusão do inquérito, prevista para daqui a 15 dias. Os acusados estão na Penitenciária de Tremembé.

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