Julgado pela maior chacina do Rio, PM se contradiz

No primeiro dia de julgamento do soldado da Polícia Militar Carlos Jorge Carvalho, acusado de participação na chacina da Baixada Fluminense, parentes e vítimas ficaram lado a lado com familiares do réu. Apenas algumas cadeiras separaram as famílias no plenário do Tribunal do Júri de Nova Iguaçu. Primeiro dos cinco PMs acusados a ir a julgamento, Carvalho, que se declarou inocente, entrou em contradição ao contar o que fez no dia do crime. A previsão é de que a decisão do júri popular, formado por cinco mulheres e dois homens, saia somente na quarta-feira, 23.A chacina ocorreu na noite de 31 de março de 2005, nos municípios de Nova Iguaçu e Queimados. Vinte e nove pessoas foram assassinadas e uma ficou ferida. Nesta segunda, 21, cerca de 80 parentes das vítimas lotaram a sala do Tribunal do Júri. Eles chegaram cedo ao fórum, levando faixas de protesto e vestindo camisetas com fotos e nome dos mortos. Antes do início da sessão, quando participavam de uma oração liderada pelo bispo diocesano de Nova Iguaçu dom Luciano Bergamim, eles se depararam com um grupo de 20 pessoas, entre vizinhas e familiares do soldado Carvalho. Eles também usavam camisetas, em que se lia a frase: "Carlos, temos certeza de sua inocência".Os grupos não se falaram, mas mães e irmãs de amigos das pessoas assassinadas logo demonstraram indignação: "Fico revoltada. Isso é uma afronta. Eles chegaram depois da gente querendo colocar faixas do lado das nossas", disse Rosilene Vasconcelos, de 31 anos, que perdeu o irmão Fábio, que tinha 28. Doméstica, ela não hesitou em faltar ao trabalho para assistir à audiência. "Fiz questão de vir. A gente lutou muito por isso".Pai do PM, o aposentado Almir de Freitas Carvalho, de 64 anos, que organizou a demonstração de apoio ao filho, ao lado da nora, a dentista Lilia Ramalho Pontes, de 31, garantiu que o soldado é inocente: "Foi tudo forjado", afirmou. "Se você for ver os retratos-falados dos bandidos, não tem nada a ver com o meu marido", continuou Lília.Ana Paula da Silva, de 29 anos, que teve um irmão e um primo assassinados - Francisco José da Silva, de 34 anos, e Marcus Vinícius Sipriano de Andrade, de 15 - e se sentou no plenário a duas fileiras de Lilia, mostrou-se inconformada: "O sangue do meu irmão foi achado na jaqueta e no sapato dele. Como podem dizer que este homem é inocente?".O soldado, que trabalhava no 20.º Batalhão da Polícia Militar, responsável pelo policiamento em Nova Iguaçu, negou a sua participação nos crimes e acusou um sargento reformado do batalhão (cujo nome não revelou) de incriminá-lo. Segundo o PM, o militar é pai de um rapaz que teria sido acusado de outra chacina - esta ocorrida em 2001, em Belford Roxo, onde morava Carvalho. De acordo com sua versão, como o soldado colaborou para a prisão do filho do sargento, ele passou a ser alvo de perseguição. "A partir dali, todos as mortes que aconteciam na região passaram a ser culpa minha. Ele pagou gente para me denunciar", afirmou Carvalho.O PM se contradisse ao relatar suas atividades no dia do crime - deu informações diferentes das que tinha fornecido em depoimentos anteriores. Garantiu que só soube da chacina na manhã seguinte, quando o amigo Marcos Antônio Carneiro lhe telefonou para contar o que havia ocorrido. Carneiro foi quem lhe emprestara o Gol prata que, segundo o Ministério Público, foi usado na chacina. No carro, foram encontrados vestígios de sangue de duas vítimas, além de munição. Carvalho acusou o delegado Rômulo Vieira, que participou das investigações, de "plantar provas contra ele".O soldado é acusado de 29 homicídios duplamente qualificados - cometido por motivo fútil (demonstração de força na Baixada Fluminense) e com recursos que impossibilitaram a defesa das vítimas -, uma tentativa de homicídio e formação de quadrilha. Ele já tinha sido condenado a 7 anos e oito meses de prisão, no início deste mês, em outro processo, por receptação de carros roubados.Respondem pelos mesmos crimes os cabos Marcus Siqueira Costa e José Augusto Moreira Felipe e os soldados Fabiano Gonçalves Lopes e Júlio César Amaral de Paula. Ainda não está definido se eles serão julgados juntos ou separadamente (o júri de Carvalho está sendo realizado primeiro a pedido de sua defesa). Os cabos Ivonei de Souza e Gilmar Simão foram pronunciados apenas por formação de quadrilha e aguardam julgamento em liberdade. Quatro PMs denunciados foram impronunciados por falta de provas.

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