Jurados decidem hoje se motoboy é doente ou mau

Os cinco homens e duas mulheres do júri do motoboy Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do Parque, vão decidir ainda hoje se o réu deve ter a sua pena reduzida por ser considerado uma pessoa com transtorno de personalidade, diminuindo sua pena, ou se ele deve ser considerado apenas uma pessoa má, mas inteiramente consciente dos crimes que cometeu. Essa é a única polêmica entre defesa e acusação no primeiro julgamento por homicídio do homem acusado de pelas mortes de mulheres ocorridas em 1998 no Parque do Estado, na zona sul de São Paulo.Defesa e acusação pedem a condenação de Pereira pela morte da comerciária Rosa Alves Neta, de 21 anos. Caso seja condenado, pode pegar até 33 anos por homicídio e ocultação de cadáver. O maníaco confessou o assassinato durante seu interrogatório ontem, pouco depois do início do julgamento. Justificou-se dizendo que havia sido possuído por "forças malignas". Pereira é réu em sete casos de homicídio - em dois outros a acusação contra ele foi arquivada. Ele foi condenado no ano passado a 107 anos de prisão por roubos, estupros e atentados violentos ao pudor. Laudo psiquiátrico atesta que o maníaco é portador de um transtorno anti-social de personalidade, atual nome do que antigamente era chamado de psicopatia, sendo, portanto, semi-imputável. Se o júri acolher o laudo, o juiz decidirá se determina que o motoboy seja internado até ser curado ou se ele cumprirá pena de prisão, devendo necessariamente diminuí-la em relação a que seria dada caso o exame não seja levado em consideração.Os debates começaram às 15 horas. Para o promotor Edilson Mongenout Bonfim, a sociedade não pode correr o risco de Pereira ser mandado a um hospital psiquiátrico e solto pouco depois como ocorreu com outros maníacos, como o "Chico Picadinho". Solto dez anos depois de matar e esquartejar uma mulher em São Paulo, e após ter sido considerado curado, voltou a cometer o mesmo tipo de crime. Bonfim disse ainda que a personalidade do motoboy é apenas uma variante da normal. Ele, afirmou, entende o que faz. "Ele não rasga dinheiro, nem toma ônibus errado", afirmou. O promotor contou que uma das vítimas sobreviventes do maníaco escapou de ser estuprada porque disse ser portadora do vírus HIV, causador da Aids.A advogado do réu, Maria Elisa Munhol, afirmou que seu cliente não é uma pessoa normal. Ele, segundo disse, é um psicopata perverso e deve ser tratado.O segundo do dia do julgamento do maníaco começou com o depoimento da segunda testemunha de acusação, o psiquiatra Paulo Argarate Vasques, perito que assinou o laudo que considerou Pereira como um homem portador de um transtorno anti-social de personalidade. O promotor perguntou ao perito se ele considerava correta, do ponto de vista científico, a definição de semi-imputabilidade da lei brasileira.O perito disse que não, que era muito difícil saber se o réu tinha condições na época do crime de dominar a sua vontade de matar, embora soubesse que se tratava de um delito. "O réu não tem relações sociais, não forma vínculos afetivos, sendo que a crueldade, o desejo de causar sofrimento desnecessário à vítima, a perversidade é a sua característica", disse o psiquiatra. Ele concluiu dizendo que não há tratamento para o caso de Pereira. Segundo ele, o réu deve permanecer preso pelo resto de sua vida, já que em liberdade poderia voltar a matar. Ontem à noite, os jurados ouviram o depoimento de Maria Luisa Cabral, irmã da vítima. Emocionada, ela pediu que o réu fosse retirado da sala enquanto fosse ouvida. "Por quê?", perguntou o promotor. "Eu não ia aguentar olhar para aquela cara, sabendo que ele fez uma barbaridade com a minha irmã. Sei que já passou muito tempo, mas ele tirou a vida de alguém que poderia estar aqui."

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