Wilton Junior/Estadão
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Júri absolve filho de Flordelis por morte de pastor, mas condena por associação criminosa

Tribunal em Niterói julgou nesta quarta-feira a segunda parte do processo de homicídio; um filho já havia sido condenado anteriormente. Ex-deputada deve sentar no banco dos réus em maio

Marcio Dolzan e Fabio Grellet, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2022 | 10h08

RIO - O Tribunal do Júri de Niterói, na região metropolitana do Rio, absolveu, no início da manhã desta quarta-feira, 13, Carlos Ubiraci Francisco da Silva, filho afetivo de Flordelis, pela morte do pastor Anderson do Carmo. Um dos crimes que ele respondia era o de homicídio triplamente qualificado, mas Carlos Ubiraci acabou condenado a quatro anos e seis meses de prisão, em regime semiaberto, por associação criminosa. Outros três réus também foram sentenciados.

Além de Carlos, outro filho biológico de Flordelis, Adriano dos Santos Rodrigues, foi condenado. Ele foi sentenciado a quatro anos e três meses por uso de documento falso e associação criminosa.  Outro réu, o ex-PM Marcos Siqueira Costa, por sua vez, foi condenado a cinco anos por uso de documento falso e associação criminosa. Sua mulher, Andrea Santos Maia, foi condenada a quatro anos e três meses de prisão pelo mesmo.

Outro filho adotivo de Flordelis, André Luiz de Oliveira, também seria julgado, mas o advogado dele passou mal e seu julgamento foi suspenso – será remarcado.

O julgamento no Fórum de Niterói (região metropolitana do Rio) durou mais de 20 horas, sendo que o veredito foi anunciado pouco depois das 9h desta quarta. O julgamento havia começado às 10h45 de terça-feira, 12, e os jurados ficaram reunidos por mais de duas horas para decidir o caso. 

Desde que iniciou o julgamento, na manhã de terça, doze testemunhas - incluindo os dois delegados que participaram da investigação - e os quatro réus prestaram depoimentos no Fórum de Niterói, o que acabou alongando o depoimento por quase um dia.

Processo foi dividido em três partes; filho biológico já foi condenado no ano passado

Como o processo envolve 11 réus, a juíza Nearis dos Santos Carvalho Arce, da 3ª Vara Criminal de Niterói, decidiu dividi-lo em três grupos.

Em novembro de 2021, Flávio dos Santos Rodrigues, filho biológico de Flordelis acusado de disparar os tiros que mataram Anderson, foi condenado a 33 anos e dois meses de prisão por homicídio triplamente qualificado, porte ilegal de arma, uso de documento falso e associação criminosa armada.

Na mesma ocasião, Lucas Cézar dos Santos de Souza, filho adotivo que teria ajudado a comprar a arma do crime, foi condenado a sete anos e meio de prisão por homicídio triplamente qualificado. A pena foi reduzida porque ele colaborou com as investigações. 

No dia 9 de maio vai ocorrer o terceiro e mais aguardado julgamento: o da própria Flordelis, que está presa e por conta da acusação teve o mandato parlamentar cassado. Ela nega ter sido a mandante do assassinato do marido, mas tem sido sistematicamente acusada pelo crime.

Assim como havia ocorrido no julgamento de novembro, também neste que terminou nesta quarta-feira o envolvimento de Flordelis foi mais debatido pelas testemunhas e pelos réus do que a própria participação daqueles que eram julgados.

A primeira a testemunhar foi a delegada Bárbara Lomba, que no dia do crime era a titular da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí, responsável pela investigação. Ela esteve na cena do crime e foi responsável pela primeira parte das investigações.

Ao longo de seu testemunho de quase três horas, respondendo perguntas da promotoria, da assistência de acusação e dos advogados de defesa, a delegada declarou que as investigações apontaram para uma divisão na família da pastora, com uma parte dos filhos tendo regalias em relação aos outros. Disse ainda que um grupo, incluindo a própria Flordelis, estava descontente com a conduta de Anderson do Carmo. Segundo ela, o pastor era o gestor financeiro da família e determinava todos os passos da deputada.

A segunda testemunha foi o delegado Allan Duarte, responsável pela conclusão do inquérito, com o indiciamento dos acusados. Respondendo a uma pergunta formulada por um dos jurados, Duarte afirmou  que o crime “foi iniciativa da Flordelis” e que “ela foi a mentora” do assassinato.

Depois prestaram depoimento filhos adotivos de Flordelis, duas netas e uma mulher que empregou Lucas, o filho condenado em novembro. Todos fizeram críticas a Flordelis e lançaram suspeitas ou acusações sobre sua conduta. “Aquilo não era uma casa, era um hospício”, disse Regiane Ramos, ex-patroa de Lucas.

Uma neta de Flordelis – filha de um filho adotivo da pastora – afirmou que quem era adotado tinha que fazer todas as tarefas domésticas, enquanto os filhos naturais não trabalhavam. Ela afirmou ainda que todos os moradores da casa sabiam que Flordelis e alguns de seus filhos estavam tentando matar Anderson do Carmo envenenado. "Todos sabiam, até ele sabia, mas ele não queria acreditar", afirmou. 

Pastor foi morto a tiros em 2019

Flordelis nasceu e foi criada na favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio. Aos 14 anos perdeu o pai e um irmão em um acidente de carro. Nessa época já acompanhava a mãe aos cultos de uma igreja evangélica da favela, em cujo coral cantava. Começou a ajudar crianças envolvidas com o tráfico de drogas, fundou uma igreja (o Ministério Flordelis) e fez sucesso como cantora.

Anderson era 16 anos mais novo que ela e, ao se aproximar da família de Flordelis, primeiro namorou uma filha dela. Depois acabou se casando com a pastora. Segundo a Polícia Civil e o MP-RJ, era ele quem comandava as carreiras política, religiosa e artística da mulher. Flordelis e alguns de seus filhos estariam discordando das decisões de Anderson, e por isso teriam tentado matá-lo envenenado, sem sucesso.

Por volta das 4h de 16 de junho de 2019, o casal chegou de um passeio e Flordelis entrou em casa, no bairro de Pendotiba. Anderson foi abordado por criminosos e levou mais de 30 tiros. Ele chegou a ser socorrido para o Hospital Niterói D’Or, no bairro de Icaraí, mas morreu. O pastor tinha 42 anos.

Segundo o MP-RJ, Flordelis foi responsável por arquitetar o homicídio, arregimentar e convencer o executor direto e demais acusados a participarem do crime e simular um latrocínio (roubo seguido de morte). A deputada também financiou a compra da arma e avisou da chegada da vítima no local em que foi executada, afirma a denúncia.

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