'Júri vai se posicionar de forma independente'

Bruno José Daniel Filho, irmão do prefeito assassinado Celso Daniel

Entrevista com

Débora Bergamasco, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2010 | 00h00

A notícia de que vai a júri popular o julgamento do empresário Sérgio Gomes da Silva, acusado de mandar matar o prefeito de Santo André Celso Daniel, em 2002, foi comemorada em Paris. Lá, vive há quatro anos seu irmão Bruno José Daniel Filho, com a mulher, Marilena Nakano, e três filhos. Bruno relata que se autoexilou na França depois de receber ameaças e sonha em retomar sua vida de professor de economia da PUC. Por telefone, afirmou ainda que está inscrito em programa de ajuda do governo francês para pessoas de baixíssima renda e mora de favor na casa de um amigo.

O que achou da decisão da Justiça de levar Sérgio Gomes, o Sombra, a júri popular?

Fantástica. É uma causa pelo qual a gente vem lutando desde que lemos o inquérito da polícia, que é absolutamente escandaloso de tão ruim. Significa que, diante das provas coletadas, os jurados vão se posicionar de forma independente. Em segundo lugar, passa a ser veiculado na mídia e pode criar clima propício para que as pessoas ajam com mais intensidade.

O senhor diz que se autoexilou na França porque havia recebido ameaças. De que tipo?

Ligaram para uma tia dizendo que era bom que os irmãos do Celso saíssem do País porque estavam jurados de morte. Chegamos a andar com seguranças armados, mas estávamos com um medo danado. As ameaças começaram depois que declaramos publicamente a conversa com Gilberto Carvalho e porque tentamos o tempo todo o aprofundamento das investigações.

Diz que também testemunhou a conversa com Gilberto Carvalho sobre um esquema de corrupção da prefeitura que alimentaria os caixas do PT. Como foi?

Na época, ele era chefe de gabinete do Celso. Uma semana após o crime, Gilberto chamou a mim e a João Francisco (outro irmão de Celso) e nós tivemos uma conversa rápida com ele. Ele nos relatou que havia um esquema de arrecadação de recursos para as campanhas eleitorais do PT e aliados. E que ele mesmo havia levado ao então presidente do PT, José Dirceu, R$ 1,2 milhão, no carrinho pessoal dele, morrendo de medo. Eu fui testemunha dessa conversa, o meu irmão mais velho fez essa declaração ao Ministério Público. Quando foi necessário falar sobre a história, isso ocorreu em 2005 na CPI dos Bingos, eu confirmei. Houve uma acareação com Gilberto Carvalho. Ele, obviamente, negou esse relato.

O presidente Lula demonstrou algum tipo de apoio à sua família?

Nenhum, nenhum. Ele foi na noite do velório. Nos vimos também na cerimônia de sétimo dia. Ele sequer se manifestou nessa cerimônia, não nos falamos e nunca demonstrou nenhum tipo de apoio. Nenhum.

Como é hoje a vida de vocês?

Muito difícil. Conseguimos trabalhos temporários, com muita instabilidade econômica e nem sempre na nossa área de atuação. Dei consultorias e minha mulher, professora da área de pedagogia, trabalhou numa universidade, mas como secretária.

O padrão de vida mudou muito?

Completamente. Somos inscritos no rol das pessoas de baixíssima renda. Conseguimos junto a uma ONG morar em uma coabitação. Hoje vivo com minha mulher no apartamento de um amigo. Meus três filhos estão em outros lugares da Europa que eu prefiro não citar.

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