Justiça Criminal condena 19 policiais federais do Rio

Em três sentenças diferentes, a Justiça Federal Criminal condenou 19 policiais federais do Rio: dois delegados, 15 agentes e dois escrivães. Eles foram acusados de variados crimes - tortura, peculato, tráfico de drogas, falsificação ideológica, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro - e pegaram penas que variam de dois anos e quatro meses a 26 anos e seis meses de reclusão. Somente um deles, o agente Walter Rui Santana, condenado por falsidade ideológica, não teve decretada a perda do cargo. Nove dos condenados estão presos.Os processos são de casos rumorosos. Um deles foi a tortura praticada contra três acusados de matarem um policial federal, em setembro de 2002. O cozinheiro Antônio Abreu morreu de traumatismo craniano. Em dezembro de 2004 houve o roubo de 20 quilos de cocaína apreendidos com uma quadrilha internacional. A droga depois teria sido vendida a traficantes. Um outro processo refere-se ao roubou de um talonário de cheques, em outubro de 2004, no Clube Privê Cinco Estrelas, quando o publicitário Duda Mendonça foi preso por participar de brigas de galo.Cinco destes policiais foram condenados em dois processos diferentes - no do roubo da cocaína da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) e no do roubo do talão de cheque no clube privê. Destes cinco, dois já tinham sido condenados em julho passado pelo desaparecimento de cerca de R$ 2 milhões também da DRE, em setembro de 2005: o agente policial Marco Paulo Rocha, cujas penas somam 37 anos, nove meses e 15 dias de cadeia; e o escrivão Fábio Marot Kair condenado a 25 anos cinco meses e 15 dias de reclusão em três processos.As três sentenças, que juntas somam 547 laudas, retratam um quadro preocupante n Polícia Federal no Rio. No caso das torturas, o juiz Flávio Oliveira Lucas, da 4ª Vara Federal, não condenou ninguém pela morte do cozinheiro Abreu, pois nunca apareceram os responsáveis. Na sentença, ele registra: "Pobre do país que tem como modelo de comportamento condutas como as apuradas aqui, praticadas por agentes que sequer tiveram a dignidade de reconhecer seus erros perante a Justiça, para a qual acreditam, ou ao menos fingem, estar contribuindo com seus afazeres diários".Já o juiz Alexandre Libonati Abreu, da 2ª Vara Federal, que julgou os acusados do roubo do talão de cheque, demonstra que o grupo condenado formava uma quadrilha que já agia há algum tempo e desabafou: "Parece-me totalmente inaceitável que as chefias da DRE não tivessem recebido, ao menos, algum indício das práticas criminosas que se davam. Constitui um contra-senso que a polícia investigativa da União não logre identificar no seu próprio e restrito grupo de componentes desvios passíveis de punição, notadamente tão graves e permanentes no tempo".Tanto Libonati como a juíza Valéria Caldi Magalhães, da 8ª Vara Federal, responsável pelo processo do roubo da cocaína, mostraram-se preocupados quando souberam que o grupo de policiais acusados tinha sido escolhido para investigar outros colegas por crimes que eles mesmo praticaram.Na sentença, a juíza registra: "A simples constatação de que policiais lotados na DRE foram designados para compor uma equipe responsável pela investigação "paralela" de graves fatos ocorridos na DRE, em que os principais suspeitos eram, portanto, os próprios policiais da DRE (todos colegas), só faz aumentar neste juízo a convicção de que a Polícia Federal do Rio de Janeiro precisa urgentemente de um choque de gestão e moralidade, para dizer o mínimo".Relação dos condenadosCaso do roubo de entorpecentes: os agentes de polícia André Campos, Clóvis Barrouin de Mello Neto, Ivan Ricardo Leal Maués e Marcos Paulo da Silva Rocha foram condenados a 14 anos de reclusão. O escrivão Fábio Marot Kair a 11 anos e oito meses). Todos eles estão presos.Caso do roubo do talão de cheque: a condenação atingiu o os cinco envolvidos no roubo de entorpecente, sendo que o agente Rocha foi condenado a 12 anos e seis meses, o agente Maués a 10 anos e os demais, junto com os também agentes Adilson Albi Vieira e Marcel Hamada Grezes a dois anos e seis meses.Caso da tortura: os delegados Luiz Felipe Egger Magalhães (dois anos e quatro meses) e Marcelo Duval Soares (nove anos e sete meses); os agentes de polícia Alexandre Pessoa Costa (sete anos, está preso), André Luiz Geraldo de Carvalho (dois anos e quatro meses), Cláudio Alberto Barbosa Pontes (11 anos e 10 meses, está preso), José Ricardo Sant´ana Mingozzi (três anos e seis meses), Luis Oswaldo Vargas de Aguiar (sete anos, está preso), Marcello Wander Monteiro Bessa (três anos e seis meses), Paulo César Bento Inácio, Vulgo "Borracha" (sete anos, está preso), Ribamar Pereira da Silva (três anos e seis meses), Walter Rui Santana (dois anos e quatro meses); os escrivão Francisco Carlos Dornellas (seis anos e 10 meses).

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