Justiça da França não consultou famílias sobre resgate de corpos do AF-447

Decisão foi tomada baseada em processo que investiga causas do acidente; exames de DNA são essenciais

Andrei Netto, correspondente de O Estado de S.Paulo,

05 de maio de 2011 | 14h34

PARIS - Ao ordenar que as equipes técnicas a bordo do navio Ile de Sein iniciassem o resgate dos corpos de vítimas do voo AF-447, submerso há dois anos no Oceano Atlântico, a Justiça da França não consultou as famílias diretamente interessadas. Isso aconteceu porque os restos mortais são uma peça fundamental do processo judicial que transcorre no Ministério Público de Paris e que investiga as companhias Air France e Airbus por homicídio culposo. Além disso, a expedição em alto mar pode determinar o patamar das indenizações a serem pagas.

 

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A operação de resgate dos corpos teve início na quarta-feira, quando o robô-submarino Remours 6000 fez uma primeira e fracassada empreitada. Na manhã desta quinta-feira, 5, uma segunda tentativa foi realizada, esta com sucesso, segundo informou em nota a Direção Geral de Gendarmerie Nationale (DGGN), a polícia francesa. O corpo resgatado estava junto dos destroços do avião, imerso a uma profundidade de 3,9 mil metros, e ainda estava preso ao assento da aeronave.

 

Içado a bordo, o corpo da vítima foi levado à câmara fria do navio, onde será preservado até ser transportado para a cidade de Caiena, na Guiana Francesa, de onde partirá para a França. Desde já, entretanto, DNA foi colhido para o processo de identificação. "As amostras foram recolhidas pelos investigadores da Gendarmerie no navio e serão transmitidas na próxima semana, ao mesmo tempo em que as caixas-pretas, a um laboratório de análise afim de determinar a possibilidade de identificação das vítimas por DNA", disse a polícia.

 

A nota reitera ainda que a operação de resgate dos corpos é feita em "condições particularmente difíceis e inéditas" e que "forte incerteza ainda subsiste quanto à capacidade técnica de resgate dos corpos".

 

Em Paris, a operação reavivou a dor das famílias de vítimas do voo AF-447. Embora alguns parentes tivessem manifestado o desejo de que os corpos não fossem retirados do mar, não houve questionamentos sobre o procedimento. Segundo Alain Jacubowicz, advogado da Associação Ajuda Mútua e Solidariedade, a expedição foi ordenada pela Justiça, e os parentes não foram consultados.

 

"A Justiça da França não consultou as famílias. Suas opiniões não têm nada a ver com a decisão, e isso seria até mesmo inconcebível", afirmou o representante, reiterando: "As autoridades fazem o que podem. Não seria possível deixar os corpos onde estão". Conforme Jacubowicz, não é o papel da associação questionar o procedimento judicial.

 

Robert Soulas, pai de uma jovem e sogro de outra vítima do voo AF-447, reconheceu que havia impasse entre as famílias. Ele próprio era contra a retirada dos corpos do fundo do mar, mas aceitou a decisão judicial. "Não havia solução que satisfizesse a todos", confirmou. "Era preciso tomar uma decisão e não adiantaria o governo consultar as famílias, já sabendo que não haveria unanimidade."

 

A ordem de realizar a operação foi dada por oficiais de Justiça a bordo do navio, e cumpre a orientação da juíza de instrução do caso, Sylvie Zimmerman, do Ministério Público de Paris. Cabe a ela administrar as investigações, que já resultaram em abertura oficial de inquérito contra a Air France, companhia à qual o avião pertencia, e Airbus, fabricante do modelo acidentado, por crime de "homicídio culposo" - que resulta em morte não intencional. Além da culpa, esse processo determinará as indenizações às famílias de vítimas.

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