Força Aérea Brasileira/Divulgação
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Justiça da França pede nova perícia sobre queda do voo Air France-447

Magistrados haviam anulado em 2015 relatório denunciado por famílias e pela Air France como favorável ao fabricante do avião, a Airbus

Andrei Netto, Correspondente de O Estado de S. Paulo

15 Fevereiro 2017 | 15h45

PARIS - A Justiça da França solicitou uma nova perícia independente sobre as causas da queda do voo Air France-447, entre o Rio de Janeiro e Paris, em 2009, depois que famílias de vítimas denunciaram o parecer técnico anterior não foi imparcial o suficiente ao analisar as falhas do Airbus A-330 que caiu no Oceano Atlântico. O documento beneficiaria a fabricante europeia dos aviões, ressaltando a importância dos pilotos e da Air France. 

Um total de 228 pessoas morreram, entre tripulantes e passageiros, na queda do avião, na noite de 31 de maio de 2009. Desde então, uma investigação foi aberta pelo Ministério Público, que resultou em um processo criminal ao qual respondem as duas companhias diretamente envolvidas, Airbus e Air France. 

Uma junta de três experts em aviação civil foi designada para preparar um novo relatório, cuja versão provisória terá de ser apresentada até 3 de setembro deste ano. Os juízes de instrução do caso solicitaram que questões técnicas, como as implicações da perda de dados de navegação causada pelo congelamento das sondas pitot do Airbus A-330, que medem a velocidade de uma aeronave, sejam esclarecidas.

Dúvidas sobre os procedimentos adotados pela tripulação nas circunstâncias do acidente e da eventual responsabilidade da Air France na formação de seus pilotos também estão entre as respostas a serem dadas.

Na prática, a contra-expertise reabre todos as frentes de investigação sobre as causas da queda do AF-447, em especial sobre a eventual culpabilidade de três partes: a Airbus, fabricante da aeronave; a Air France; companhia à qual o avião pertencia e empregadora dos pilotos; e por fim a tripulação.

O pedido de parecer técnico independente é o terceiro solicitado pelo Ministério Público e pela Justiça da França desde que o inquérito foi aberto e que ambas as empresas, Airbus e Air France, foram denunciadas pelo acidente.

Na primeira, entregue em 2012, os peritos apontaram uma série de fatores como tendo contribuído para a queda do avião, desde o congelamento das sondas pitot, passando pela pane eletrônica da aeronave e pela má reação dos pilotos à incoerência de dados enviados pelos instrumentos de navegação à tripulação durante a queda.

Em 2014, uma segunda expertise solicitada pela Airbus foi entregue à Justiça. Nesse documento, mais complacente com a fabricante dos aviões, os peritos apontavam a "reação imprópria da tripulação" como a principal causa da queda do aparelho. O documento foi contestado pela Air France e indignou as associações de famílias de vítimas, que pediram a anulação do parecer. Em novembro de 2015, o Tribunal de Apelações considerou que havia vícios de procedimento na expertise e a anulou.

Agora, uma nova perícia será iniciada, mais de sete anos e meio após a tragédia. Para Jean-Baptiste Audousset, engenheiro que perdeu o companheiro no acidente, seria preferível que a nova contra-expertise nem sequer acontecesse, mas o procedimento está previsto no Código Penal e precisa ser respeitado.

"O processo é muito longo, mas é assim nesse tipo de caso. Há pesquisas técnicas, debates, os experts vão discutir com as partes civis, enfim, há todo um procedimento que acontecerá", disse ao Estado

Para a presidente da associação de vítimas Ajuda Mútua e Solidariedade AF-447, Danièle Lamy, a espera será mais um motivo de desgaste, mas também representa uma nova esperança de que o caso avance, enfim, na Justiça.

"Serão de novo mais meses de espera. É muito longo para as famílias, que esperam há oito anos. Esperemos ao menos que isso faça as coisas avançarem", afirmou Danièle Lamy. "Temos o sentimento que os juízes de instrução tomaram bom conhecimento do dossiê, considerando as questões colocadas. Se essa contra-expertise permitir conhecer as causas do acidente, muito bem. Mas é preciso que ela não dure mais de seis meses."

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