Justiça decreta prisão de militares que ocupavam morro no Rio

Oficiais são acusados de entregar três jovens presos no morro da Providência a traficantes rivais da Mineira

Paulo R. Zulino, do estadao.com.br,

16 de junho de 2008 | 10h40

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro decretou, na madrugada desta segunda-feira, 16, a prisão temporária dos 11 militares suspeitos de participação na morte de três jovens detidos pelo Exército, no último sábado, 14, no Morro da Providência, zona portuária carioca. Os militares teriam entregue os adolescentes a uma facção criminosa do Morro da Mineira, que foi acusada de ter executado os rapazes. Os corpos foram encontrados num lixão na baixada fluminense.   Veja também: Chefe da milícia da Favela do Batan se entrega no Rio Moradores queimam ônibus em protesto contra Exército no Rio Polícia quer prisão de 11 militares que ocupam morro no Rio   A juíza de plantão Regina Lúcia de Castro Lima atendeu solicitação do 4.º Distrito Policial da Praça da República, que investiga a ocorrência, e decretou a prisão temporária, por 10 dias, dos 11 militares suspeitos de envolvimento no caso. Terminado esse prazo, a Justiça analisará se aceita ou não denúncia contra os militares, quando, então, poderá vir a ser decretada a prisão preventiva. O Exército também abriu inquérito para apurar os assassinatos.   De acordo com o delegado-titular da 4ª Delegacia de Polícia, Ricardo Dominguez, alguns militares confessaram que levaram os jovens para o Morro da Mineira, na zona norte da cidade, que é controlado por traficantes de uma facção rival.   A polícia informou que os corpos de Wellington Gonzaga Costa, de 19 anos, Marcos Paulo da Silva Correia, de 17, e David Wilson Florêncio da Silva, de 24, foram encontrados mutilados e com marcas de tortura por catadores de lixo. A mãe de Wellington desmaiou ao receber a notícia.   O crime resultou em protestos de moradores no Morro da Providência. No domingo, 15, eles provocaram o fechamento do comércio nos arredores da Central do Brasil, onde está situado o prédio da Secretaria de Segurança Pública, localizada ao lado do Comando Militar do Leste, sede do Exército no Rio. Os militares disparavam tiros para o alto quando entravam na favela.   "Me avisaram que o meu filho foi preso. Encontrei ele no Quartel de Santo Cristo, sentado ao sol. Queria esperar, mas me mandaram ir para a delegacia para onde ele deveria ter sido levado. Após a demora, liguei para o celular dele. Depois de várias tentativas, um homem atendeu e disse que os soldados venderam o meu filho e os amigos para traficantes da Mineira. Nenhum deles eram envolvidos com o crime. O que fizeram com eles não se faz nem com um cachorro", disse a dona de casa, Liliam Gonzaga da Costa, de 43 anos, que foi reconhecer o corpo do filho Wellington no IML de Duque de Caxias. Mototaxistas também presenciaram a entrada do trio no quartel.   Este é o momento mais tenso desde que o Exército ocupou o Morro da Providência em dezembro do ano passado para a reforma das fachadas das casas, previstas no projeto Cimento Social. A obra com recursos do Ministério das Cidades saiu após emenda do Senador Marcello Crivella (PRB), candidato à Prefeitura do Rio. No sábado, após constatar o desaparecimento dos jovens, cerca de 30 moradores desceram o morro, queimaram um ônibus e depredaram outros nove. Os passageiros do veículo incendiado foram salvos por policiais do 5º Batalhão de Polícia Militar, que patrulham os acessos à Providência para evitar novos tumultos.   O Comando Militar do Leste (CML) abriu Inquérito Policial Militar para apurar o caso. O Exército confirmou que os jovens foram abordados por uma patrulha de militares do Grupamento de Unidades-Escolas da 9ª Brigada de Infantaria Motorizada, nas proximidades da Praça Américo Brum, no alto do morro, e detidos por desacato na manhã de sábado, por volta das 8h. Os três foram levados ao comandante da tropa no quartel do Exército em Santo Cristo, interrogados e liberados, pouco depois de meio dia, segundo o Exército. O nome dos militares e as patentes não foram revelados.   (Com Pedro Dantas, de O Estado de S. Paulo)

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