Justiça manda prender 11 policiais do Denarc e apura ameaças de morte

Policiais são acusados de sequestro e tortura de traficantes; eles teriam produzido dossiês para intimidar promotores, o que reforçou a necessidade das prisões

Ricardo Brandt, O Estado de S. Paulo

10 Setembro 2013 | 22h31

CAMPINAS – A Justiça aceitou denúncia contra 13 policiais civis do Departamento Estadual de Repressão ao Narcotráfico (Denarc), investigados por um suposto esquema de cobrança de propina, com sequestro e tortura, de traficantes de Campinas, no interior de São Paulo, para permitir a venda de drogas. Entre os denunciados estão o ex-diretor de Inteligência do departamento Clemente Calvo Castilhone Júnior e o delegado Fábio do Amaral Alcântara.

Ao todo são 23 denunciados. Desses, 11 policiais civis, um informante da polícia e 9 traficantes tiveram a prisão preventiva decretada nesta segunda-feira, 9, pelo juiz da 6ª Vara Criminal de Campinas, José Guilherme Di Rienzo Marrey. Ameaças feitas aos promotores reforçaram a necessidade das prisões. Um dos promotores, Amaury Silveira Filho, que integra o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Campinas, recebeu uma carta que teve como remetente "Chumbo grosso com munições", ameaçando de morte a sua mãe e um outro promotor.

Os promotores do Gaeco não pediram a prisão de Castilhone , acusado de violação de sigilo funcional. Ele teria envolvimento com o vazamento de uma operação policial contra os traficantes investigados.

No caso de Alcântara, acusado por coparticipação em um sequestro de um traficante e falsidade ideológica em operações policiais forjadas, o magistrado considerou não ser competente para analisar o pedido de prisão preventiva. O delegado já havia sido solto por determinação do Tribunal de Justiça, após ter tentado suicídio na Corregedoria da Polícia.

Tanto Alcântara como Castilhone foram presos temporariamente no dia 15 de julho. Seus advogados, Márcio Sayeg e João Batista Augusto Júnior, respectivamente, negam qualquer relação dos clientes com os crimes.

Os outros 11 policiais foram enquadrados em crimes como formação de quadrilha, extorsão mediante sequestro, roubo, falsidade ideológica, tortura e associação ao tráfico. No inquérito, eles negaram relação com os criminosos.

Segundo investigação do Gaeco, os alvos das propinas eram traficantes de Campinas, liderados pelo sequestrador Wanderson Nilton de Paula Lima, o Andinho, que está preso, desde 2002, no presídio de segurança máxima de Presidente Bernardes. Ele é um dos traficantes denunciados.

Entre janeiro e maio deste ano, o grupo de policiais e pessoas que se passavam por policiais teriam extorquido, roubado, torturado, ameaçado de morte e sequestrado traficantes e familiares do grupo, em Campinas, para receber R$ 300 mil. O esquema foi descoberto acidentalmente, quando o Gaeco investiga os traficantes ligados a Andinho. Os policiais foram descobertos nas escutas telefônicas feitas nos aparelhos dos criminosos e passaram a ser alvo da apuração.

Prisões. Nesta terça-feira, 10, foram presos quatro policiais civis – dois em Campinas e dois em Jundiaí – que estavam soltos. Os demais já estavam detidos. “Há ainda um informantes dos policiais que agia como se fosse policial que tem atuação direta nos crimes e que está foragido”, afirmou o promotor Amauri Silveira Filho, do Gaeco.

Um novo procedimento investigatório foi aberto a partir dessa denúncia para apurar outros policiais e informantes da polícia – chamados de gansos – que receberiam dinheiro de traficantes do Estado para permitir a venda de drogas. “Mais pessoas apareceram e estão sendo procuradas”, disse o promotor.

Ameaças. O Gaeco e a Corregedoria da Polícia Civil investigam uma série de ameaças de morte feitas supostamente por policiais do Denarc contra promotores do caso e familiares, após a operação deflagrada em 15 de julho, com a prisão de 13 agentes temporariamente.

Em correspondências e telefonemas feitos aos promotores, há ameaças à família, levantamento de dados, como fotos de residências, carros em propriedade dos promotores e outros detalhes pessoais, feitos para mostrar que eles estão sendo monitorados pelos denunciados.

Em uma carta enviada em 22 de julho para a casa de um dos promotores do caso, por exemplo, há fotos da casa de parentes, de sua casa e dados de CPF. “O que fica claro é que eles fizeram isso com dados oficiais que evidenciam o envolvimento de policiais”, conta Amaury Silveira Filho.

Na carta, eles escrevem que “mais um policial do Denarc que você sacanear” resultará no esquartejamento de um parente. “Você vai levar tanto tiro de AR15 que a perícia não vai nem conseguir contar as perfurações”, ameaçam. “Por um quilo de pó o PCC faz o trabalho para nós.”

O fato de as ameaças serem feitas por meios de dificultam a rastreabilidade, reforçam as suspeitas do Gaeco de que elas são feitas por policiais. “Quem fez isso sabe como fazer, porque usa meios que atrapalham o rastreamento. Mas quem for pego, responderá como membro da quadrilha”, diz o promotor.

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