Justiça sabia de maus-tratos, diz pai

Sascha Zanger afirma que juiz foi avisado 19 dias antes da morte da menina; crianças estavam abaixo do peso

Pedro Dantas, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2009 | 00h00

A Justiça brasileira foi informada sobre os maus-tratos a Sophie Zanger, de 4 anos, e seu irmão R., de 12 anos, 19 dias antes da morte da menina. Em 24 de abril, um ofício dos advogados do pai das crianças, o austríaco Sascha Zanger, informou à 27ª Vara Federal do Rio que as crianças estavam abaixo do peso e estressadas em função do desajuste emocional da tia de Sophie, Geovana dos Santos, de 42 anos, e da filha dela Lílian dos Santos, de 21. As duas foram indiciadas pela polícia por tortura com resultado morte, mas continuam em liberdade. A Justiça Federal no Rio informou que não vai se manifestar porque o processo corre em segredo de Justiça. Sophie morreu em 19 de junho no Hospital de Saracuruna, em Duque de Caxias (Baixada Fluminense). Uma semana antes, ela foi levada por Lílian e uma vizinha à Unidade de Pronto Atendimento de Santa Cruz, em coma, com trauma cranioencefálico e o corpo repleto de hematomas. Sophie e o irmão foram trazidos pela mãe, Maristela dos Santos, de 40 anos, que tem problemas neurológicos, para o Brasil sem a autorização de Zanger, que lutava na Áustria pela guarda das crianças. Exames do Instituto Médico-Legal confirmaram que Sophie e R. foram agredidos por três semanas antes da morte da menina. O Ministério Público deve decidir até amanhã se pede ou não a prisão das indiciadas. O pai de Sophie confirmou que alertou à Justiça sobre os maus-tratos contra os filhos dele. "Antes da Páscoa vi minhas crianças desnutridas, com roupas sujas e sapatos furados. Minha filha tinha uma marca roxa na testa. Geovana falou que foi um acidente. R. tinha muitos quilos a menos. Minha filha morreu com 14 quilos. Escrevemos outros relatórios à Justiça sobre as condições físicas deles. Acho que o juiz não estava lendo nada, não estava se preocupando. A primeira vez que vi este juiz foi no dia da morte da minha filha. Meu grande erro foi confiar na Justiça brasileira", lamentou Zanger. No ofício, os advogados alertam para um suposto oportunismo da família acolhedora que recebia cestas básicas do Conselho Tutelar e 1 mil da bisavó de Sophie. De acordo com o documento, Lílian instigava a mãe a não assinar o recebimento da lista de gêneros alimentícios que Zanger fornecia à família dela. Comprovantes do Bank Austria mostram que dois depósitos, em janeiro e fevereiro, no valor de 500 cada um, feitos por Ernestine Zanger eram creditados na conta do marido de Geovana, o guarda municipal Sizenando Viana, de 47 anos. "Não existem apenas duas culpadas pelo crime. Eu não entendo por que não fizeram nada contra ele (Viana) ainda. Esse homem foi ao hospital e, na frente do cônsul da Áustria, falou que era o pai da menina e queria enterrar o mais rápido possível. Hoje, sei que ele queria que ninguém visse os hematomas dela", criticou Zanger. Procurado, o guarda não quis falar. Zanger deve voltar para Áustria nesta semana com o filho. Ele aguarda o parecer da 27ª Vara Federal para obter a guarda do menino. R. passará por avaliação psicológica. "Meu filho está bem, mas sei que precisará de ajuda psicológica. R. diz que a irmã morreu para ele ser feliz", revelou Zanger.

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