Justiça sabia sobre maus tratos a menina austríaca morta no Rio

Tia e prima da menina foram indiciadas por tortura seguida de morte, mas continuam em liberdade

Pedro Dantas, O Estado de S. Paulo,

06 Julho 2009 | 17h51

A Justiça brasileira foi informada sobre os maus tratos a Sophie Zanger, de 4 anos, e seu irmão R., de 12 anos, 19 dias antes da morte da menina. No dia 24 de abril, um ofício dos advogados do pai das crianças, o austríaco Sascha Zanger, informou à 27ª Vara Federal do Rio que as crianças estavam abaixo do peso e estressadas em função do desajuste emocional da tia de Sophie, Geovana dos Santos, de 42 anos, e da filha dela Lílian dos Santos, de 21. As duas foram indiciadas pela polícia por tortura com resultado morte, mas continuam em liberdade. O Ministério Público deve decidir até a terça-feira, 7, se pede ou não a prisão das indiciadas.

 

A Justiça Federal no Rio informou que não vai se manifestar sobre a denúncia porque o processo corre em segredo de Justiça. Sophie morreu no dia 19 de junho no Hospital de Saracuruna, em Duque de Caxias, na baixada fluminense. Uma semana antes ela foi levada por Lílian e uma vizinha à Unidade de Pronto Atendimento de Santa Cruz, na zona oeste do Rio, em coma, com um trauma crânioencefálico e o corpo repleto de hematomas.

 

Sophie e o irmão foram trazidos ao Brasil pela mãe, Maristela dos Santos, de 40 anos, que tem problemas neurológicos. Eles chegaram ao País em janeiro de 2008 sem a autorização de Zanger, que lutava na Áustria pela guarda das crianças. O ex-marido tentou por um ano e meio sem sucesso na Justiça brasileira levar os filhos de volta.

 

No Rio, Maristela foi morar com a irmã Geovana em dezembro do ano passado. A irmã a expulsou de casa no mês seguinte e obteve a guarda provisória das crianças. Vizinhos contaram à polícia que ouviam gritos e choro de Sophie e chegaram a acionar a polícia sem sucesso. Exames do Instituto Médico Legal confirmaram que ela e R. eram agredidos há três semanas antes da morte da menina. O pai de Sophie confirmou que alertou à Justiça sobre os maus tratos contra os filhos dele.

 

"Antes da Páscoa vi minhas crianças desnutridas, com roupas sujas e sapatos furados. Minha filha tinha uma marca roxa na testa. Geovana falou que foi um acidente. Rafael tinha muitos quilos a menos. Minha filha morreu com 14 quilos. Escrevemos outros relatórios à Justiça sobre as condições físicas deles. Acho que o juiz não estava lendo nada, não estava se preocupando. A primeira vez que vi este juiz foi no dia da morte da minha filha. Meu grande erro foi confiar na Justiça brasileira" lamentou Zanger.

 

No ofício, os advogados alertam para um suposto oportunismo da família acolhedora que recebia Bolsa-Família, cestas básicas do Conselho Tutelar e 1 mil euros da bisavó de Sophie. De acordo com o documento, Lílian instigava a mãe a não assinar o recebimento da lista de gêneros alimentícios que Zanger fornecia à família dela.

 

Comprovantes do Bank Austria mostram que dois depósitos, nos meses de janeiro e fevereiro, no valor de 500 euros cada, feitos por Ernestine Zanger eram creditados na conta do marido de Geovana, o guarda municipal Sizenando Viana, de 47 anos. Ele não foi indiciado pela polícia no inquérito que apurou a morte de Sophie.

 

"Em minha opinião, não existem apenas duas culpadas pelo crime. Eu não entendo porque não fizeram nada contra ele ainda. Este homem foi ao hospital e na frente do cônsul da Áustria falou que era o pai da menina e queria enterrar o mais rápido possível. Hoje, sei que ele queria que ninguém visse os hematomas dela", criticou Zanger. Procurado, o guarda municipal não quis falar.

 

Embarque

 

Sascha Zanger deve voltar para Áustria esta semana com o filho. Ele aguarda apenas o parecer da 27ª Vara Federal para obter a guarda do menino. Um representante do Conselho Tutelar austríaco acompanhará a viagem.

 

R. passará por uma avaliação psicológica na Áustria. "Meu filho está bem, mas sei que precisará de ajuda psicológica por um bom tempo. R. diz que a irmã morreu para ele ser feliz'", revelou Zanger.

 

A mãe das crianças foi internada em um hospital psiquiátrico. O austríaco deve se encontrar em breve com o americano David Goldman, que tenta na Justiça brasileira a guarda do filho Sean trazido pela mãe brasileira ao Rio em dezembro de 2004.

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