Justiceiro e massacre: mesmo quebra-cabeça

Coronel que teria facilitado fuga de Cabo Bruno de presídio une as duas histórias; inquérito, porém, acabou arquivado

Bruno Paes Manso Joaquim de Carvalho ESPECIAL PARA O ESTADO,

18 Maio 2013 | 18h56

A história de Cabo Bruno e do Massacre do Carandiru, onde morreram 111 presos, são peças de um mesmo quebra-cabeça que ajuda a entender o submundo da insegurança pública em São Paulo. O personagem que une essas histórias é o coronel da PM Luiz Nakaharada. Ele comandou o 3.º Batalhão de Choque em 1992, grupo que entrou no Pavilhão 9 e foi responsável pelo massacre, e coordenou nos anos 1980 o Presídio Romão Gomes, para PMs, onde Cabo Bruno esteve preso.

 

Em 1987, Nakaharada foi investigado por facilitar a fuga do justiceiro. O inquérito acabou sendo arquivado. Mas, com o passar dos anos, houve importantes ocorrências que revelaram a estreita ligação entre o justiceiro e policiais militares matadores.

 

Uma delas aconteceu no dia 10 de dezembro de 1987. Apesar de oficialmente preso, Cabo Bruno esteve na Paróquia Santos Mártires, no Jardim Ângela, na zona sul. Havia ido ao local praticar um crime.

 

Encontrou com o padre Jaime Crowe, pároco local, e pediu para dormir na igreja dele. O padre não autorizou. No dia seguinte, Cabo Bruno tentou matar Pirulito, filho de uma liderança do bairro. Pirulito era a única testemunha viva de uma chacina cometida por PMs três anos antes e ia depôr na corregedoria. 

 

Quinze dias depois do atentado a Pirulito, a fuga de Cabo Bruno do Presídio Romão Gomes foi anunciada nos jornais. A trama por trás dessa história ficou evidente para o padre Jaime. O justiceiro havia sido solto para ajudar PMs a acobertar os assassinos, em troca da fuga.

 

Na semana passada, conversando com pessoas próximas a Cabo Bruno, um dos parentes dele afirmou que o coronel Nakaharada pagou meses de estudo de um dos filhos do ex-justiceiro. A informação foi confirmada por outra pessoa próxima de Cabo Bruno. 

 

A advogada do coronel, Ieda Ribeiro de Souza, falou com Nakaharada, que negou que ele tenha arcado com as mensalidades. O coronel deve ser julgado ainda neste ano como réu no massacre da detenção do Carandiru. Ele foi o único policial a ser apontado individualmente pelos presos como responsável pela execução de cinco pessoas dentro de uma cela.

Até que ponto o incentivo à truculência policial nos anos 1980 contribuiu para o massacre de presos nos anos 1990? São perguntas deixadas no ar pela história da cidade.

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