Kassab e os 11 colegas de classe da Poli que governam a cidade

Nos anos 80, Gilberto e seus amigos eram alunos bem-comportados que preferiam os estudos à política

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

31 de janeiro de 2009 | 00h00

Eles sabem calcular derivada, entendem de álgebra linear e de geometria descritiva. Quando jovens, eram universitários que tinham cabelos curtinhos, não gostavam de rock, não se deslumbravam com o socialismo e não fumavam maconha para relaxar. Nas noitadas mais marcantes dos cinco anos de curso, eles comeram pizza na Marguerita da Rua Haddock Lobo, nos Jardins, não indo muito além de alguns copos de chope.Esses 12 homens bem-comportados, que se formaram engenheiros civis na Escola Politécnica da USP em meados dos anos 1980 e hoje estão perto dos 50, formam atualmente a linha de frente do poder na cidade. Em comum, foram colegas de classe do prefeito Gilberto Kassab (DEM) na Poli, com quem mantiveram uma amizade duradoura que lhes rendeu a oportunidade de ocupar cargos estratégicos na atual gestão. "Não é a faculdade que importa. Temos gente de todos os cursos na administração. Mas a Poli é um centro de excelência e poder contar com eles é um privilégio", defende o prefeito.Nos anos 1980, Gilberto, como era chamado pelos colegas, não chegava a se destacar no grupo como uma clara liderança. Magro e alto, com 1,83 metro, língua presa, óculos de aros grandes e antiquados, tinha acima de tudo facilidade para fazer amizades, funcionando como um ponto de convergência de turmas diferentes. "Ele se relacionava bem com CDFs, vagabundos, funcionários, com o pessoal da atlética e do grêmio", lembra Luiz Ricardo Santoro, o mais novo da turma.Atual subprefeito de Campo Limpo, na zona sul, Santoro ingressou na Poli em 1981. Ex-jogador de tênis e handebol, se tornou presidente da Atlética no 2º ano e foi quem acompanhou mais de perto a militância do prefeito nas eleições para o grêmio. Eles concorreram em chapas com nomes despretensiosos como Tempos Modernos, Falando Sério e Chop no CEC. Perderam a primeira disputa em 1983 e ganharam nos anos seguintes, conseguindo afastar do centro acadêmico da Engenharia Civil os integrantes do grupo trotskista Liberdade e Luta (Libelu).No poder, chamaram bandas de alunos para tocar na faculdade, como a Dr. Smith, estrelada por Edu Salsicha. Durante a eleição municipal de 1985, o socialista Rogê Ferreira, que concorria pelo PSB, foi levado para debater com os estudantes. "A gente era de centro. Queríamos principalmente fazer atividades para os alunos e não nos envolvíamos muito em discussões de política estudantil", se lembra Santoro.O prefeito nunca encabeçou uma chapa e ajudava mais os candidatos na busca de votos. Ao contrário do governador José Serra (PSDB), politécnico que se tornou presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) em 1964 e não se formou por causa do exílio, Kassab e sua turma priorizaram os estudos aos congressos e passeatas.FATORIALNa turma que permaneceu unida após formada, há estudantes que ingressaram em anos diferentes. "A Poli é uma faculdade fatorial", diz Pedro Evangelista, diretor de Infraestrutura da São Paulo Transporte (SPTrans), citando uma piada que faz rir apenas os iniciados em cálculo. Evangelista entrou na Poli em 1979. "Como a grade de matérias é flexível, o aluno do 4º ano também faz aulas com os do 3º, 2º e 1º anos, como em uma equação fatorial."Kassab ingressou em 1980, na segunda tentativa - na primeira, passou somente na Universidade Federal de São Carlos. Havia feito cursinho com Rubens Chamas, atual diretor de Desenvolvimento e Intervenção Urbana da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), a amizade mais antiga do prefeito, com quem estudou desde o primário, no Liceu Pasteur. No vestibular, Chamas deixou Kassab para trás. O prefeito também foi bicho de Marcelo Bruni, subprefeito de Santana, na zona norte, de Flavio Lantelme, diretor da Companhia Metropolitana de Habitação (Cohab) e de Evangelista, todos de 1979. "Eu me lembro do Gilberto careca. Mas não me recordo quem deu o trote na gente", afirma José Frederico Meyer, chefe de gabinete da Secretaria de Habitação, que entrou com Kassab em 1980.Além de Meyer, entraram no mesmo ano que o prefeito o atual secretário de Habitação, Elton Santa Fé, o diretor administrativo da Cohab, Guilherme Estanislau do Amaral, e Miguel Bucalem, secretário de Desenvolvimento Urbano. Os dinossauros do grupo são Luiz Ricardo Pereira Leite, presidente da Cohab, e Marcelo Rehder, seu antecessor, que se tornoue secretário adjunto de Comunicação e presidente do conselho da Cohab, cargos considerados estratégicos na política municipal. Pereira entrou na Poli em 1977 e estudou com Renato, o terceiro irmão de Kassab, na faculdade. Rehder ingressou no ano seguinte. Com exceção do prefeito, que tem a agenda cheia, a turma de politécnicos continua a se reunir às terças-feiras para almoçar no centro de São Paulo. No encontro para a foto, percorreram a universidade e se encontraram com o professor de Resistências Materiais, Henrique Lindenberg Neto, que aparece com o prefeito na foto de formatura. Lindenberg sempre soube de cor o nome dos alunos e colocava a casa à disposição para festas de fim de ano.Os 12 tiraram a foto na sala mais moderna da faculdade, cujas instalações foram financiadas por outro colega do grupo, Marcelo Medeiros, que atua no setor imobiliário. Atento às mudanças no ambiente, Kassab observou que, assim como em sua gestão, uma espécie de Cidade Limpa havia despoluído o visual dos corredores da Politécnica. Os murais onde eram fixadas as papeladas com notas de mais de 80 matérias e centenas de alunos não existem mais. "É a internet. A consulta hoje pode ser online", disse Kassab.Apesar de desempenharem papeis técnicos importantes na gestão, não são os contemporâneos do prefeito que dividem com ele o comando político de São Paulo. A tarefa cabe a dois veteranos. Um é o secretário de Governo, Clóvis Carvalho, politécnico de 1964, da turma de José Serra. Outro é o ex-governador Cláudio Lembro, secretário de Negócios Jurídicos, advogado formado na Faculdade do Largo de São Francisco. Na hora da foto, o politécnico Rubens Jordão, ex-adjunto da Secretaria Estadual de Esportes e organizador da campanha vitoriosa de Kassab para a Prefeitura, foi chamado pelo prefeito para aparecer na foto. Ele ainda não ocupa cargo municipal. Ainda. OS POLITÉCNICOS Miguel Bucalem, secretário de Desenvolvimento Urbano: turma de 1980 Gilberto Kassab, prefeito, 1980 José Frederico Meyer, chefe de Gabinete da Habitação: 1980 Luiz Ricardo Santoro, subprefeito de Campo Limpo: 1981 Elton Santa Fé, secretário de Habitação: 1980 Rubens Chamas, diretor de Desenvolvimento Urbano: 1979 Guilherme Estanislau do Amaral, diretor da Cohab: 1980 Marcelo Bruni, subprefeito de Santana: 1979 Luiz Ricardo Pereira Leite, presidente da Cohab: 1977 Flávio Lantelme, diretor da Cohab: 1979 Marcelo Rehder, secretário adjunto de Comunicação: 1978 Rubens Jordão, organizador da campanha, hoje sem cargo: 1978 Pedro Evangelista, diretor da SPTrans: 1980

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