Kassab paga túneis polêmicos para iniciar obra de bulevar na Juscelino

Prefeitura começa em 5 meses projeto que vai unir passagens subterrâneas, que deve estar concluído em meados de 2009

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

09 de fevereiro de 2008 | 00h00

Depois de denunciar irregularidades e ameaçar anular os contratos dos Túneis Max Feffer e Fernando Vieira de Mello, que passam sob a Avenida Faria Lima, a gestão Gilberto Kassab quitou, de uma só vez, a dívida de R$ 99,4 milhões com as empreiteiras CBPO e Queiroz Galvão - responsáveis pelas obras, feitas no último ano da gestão Marta Suplicy (PT). Com isso, abriu caminho, no ano eleitoral, para uma nova obra viária na região da Faria Lima, que vai transformar a Avenida Juscelino Kubitschek no Bulevar JK.O bulevar vai criar uma passagem subterrânea de 1.300 metros, para facilitar o tráfego na região da Avenida 23 de Maio ao Morumbi, zona sul. Ele fará a ligação direta dos Túneis Ayrton Senna/Tribunal de Justiça - complexo que começa no Ibirapuera e termina na Juscelino - aos Túneis Sebastião Camargo e Jânio Quadros, que passam sob o Rio Pinheiros. Com isso, o movimento na Juscelino vai ficar restrito ao trânsito local.Segundo o diretor de Obras da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), Edward Zeppo Doretto, o trabalho no canteiro do bulevar deve começar em cinco meses. A estimativa é de que o túnel leve dez meses para ficar pronto. Para evitar a abertura de licitação, a Emurb usou uma concorrência da gestão Jânio Quadros, vencida pela Camargo Corrêa. Mas a Prefeitura só definiu o valor do primeiro trecho, entre o Túnel Sebastião Camargo e a Rua Atílio Innocenti. Pelos valores atualizados da época de Jânio, ele estava estimado em R$ 101 milhões, valor renegociado para R$ 57 milhões.A obra do bulevar chegou a ser iniciada no mandato de Jânio, em 1988, e paralisada dois anos depois, quando Luiza Erundina assumiu e aterrou o canteiro. A Prefeitura pretende usar lajes e paredes construídas na época de Jânio, o que deve facilitar a execução das obras. "Fizemos um estudo jurídico e vamos usar a licitação original. Antes de começar as escavações, a empresa terá de fazer um estudo de subsolo e analisar o impacto que vai haver no trânsito", afirmou o presidente da Emurb, Marcelo Branco.RECUOA retomada do Bulevar JK só foi possível diante do recuo de Kassab na decisão de anular os contratos dos túneis da gestão Marta, imbróglio que se arrastava desde 2004 e representava na época um dívida R$ 72,5 milhões - R$ 27 milhões a menos do que o Executivo desembolsou agora. As duas coisas estão ligadas por causa da Operação Urbana Faria Lima, graças à qual o Município usa em obras dinheiro de empresas interessadas na valorização da área.Por lei, a Prefeitura só pode assumir novas dívidas depois de quitar débitos de outras obras feitas no âmbito da Operação Faria Lima. A CBPO e Queiroz Galvão eram as primeiras na fila de credores, mas havia mais 30 prestadores de serviço aguardando o pagamento. Todas essas dívidas estão sendo quitadas. A empreiteira CBPO cobrava na Justiça o direito de receber R$ 118 milhões, o que incluía gastos com advogados e juros. A Prefeitura conseguiu negociar a dívida levando em conta só a correção monetária. Em janeiro, a CBPO recebeu R$ 90,4 milhões em Certificados de Potencial Adicional de Construção (Cepacs), título que permite construir além do limite do zoneamento. A Queiroz Galvão, por sua vez, recebeu R$ 9 milhões em dinheiro. "Fizemos o pagamento, mas antes conseguimos obter uma redução no valor da dívida", disse Branco.Além disso, a Emurb afirma que tem dinheiro em caixa para a construção do bulevar. No último leilão de Cepacs da Operação Urbana Faria Lima, foram arrecadados R$ 180 milhões. Um novo leilão de títulos deve ser ainda este mês.O prazo de dez meses para construção do Bulevard JK é viável, na análise do presidente do Instituto de Engenharia, Edemar de Souza Amorim, embora o prazo normal numa obra desse porte leve de 12 a 18 meses. "Os dois túneis (da gestão Marta) foram feitos em menos de um ano. Problema técnico não existe numa obra. Se houver dinheiro em caixa tudo é resolvido. É possível fazer em dez meses." Amorim explicou ainda que pela região da Juscelino passa o Córrego do Sapateiro, mas isso não é problema também. "As grande avenidas na cidade têm algum córrego embaixo, como a 9 de Julho. O trabalho é o mesmo."

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